Em pleno 2015, quando a tecnologia parece cada vez mais acessível, inclusive nos recantos mais escondidos do planeta, a arte em suas diversas formas de expressão parece se democratizar. Como testemunhas estão os diversos atos públicos e o conteúdo da rede criado por artistas contemporâneos do mundo todo, a exemplo do genebrense Thomas Schunke, que é igualmente desenhista, escritor, poeta, escultor, músico, diretor de cinema e performer.
O artista contemporâneo genebrense Thomas Schunke

Esse artista polivalente estará presente na festa de lançamento do jornal Hebdolatino.ch no dia 15 de maio. Tivemos o prazer de encontrá-lo em seu atelier no bairro Les Bains de Genebra para saber um pouco mais sobre sua experiência artística, sua evolução profissional e para questioná-lo sobre o papel da arte na integração dos estrangeiros no mundo “moderno”, que às vezes parece se desintegrar.

Nascido na Alemanha em 1960, no seio de uma família de operários, em Idar-Obserstein, cidade da Renania-Palatina – que foi famosa em uma certa época por suas minas de ágata e atualmente, pela venda de pedras semipreciosas –, Thomas Schunke cresceu cercado por seus pais, sua irmã e seus avós. “Era um ambiente agradável onde nos reuníamos para cantar.” Esses encontros poderiam nos levar a pensar que seriam a base de suas raízes artísticas, mas eram simplesmente um espaço de intercâmbio familiar. Já nessa época seu pai tinha projetos para ele: “Você vai ao Exército para se tornar engenheiro civil.”

O Exército era um meio que permitia realizar estudos em troca dos serviços prestados pelos recrutas, pois a base, a ideia de seu pai era poder lhe oferecer um ofício que o ajudasse a forjar um caminho digno na vida. Porém esse projeto foi imaginado sem considerar o espírito criativo que se desenvolvia no pequeno Thomas, que com o tempo se tornou um menino inquieto, curioso e aventureiro.

“Na escola eu participava das jornadas de arte que ocorriam uma vez por ano”, nos conta deixando voar sua imaginação através do tempo. “Eu redigia artigos para o jornal dos estudantes, desenhava caricaturas satíricas dos professores, escrevia poemas…” Por isso é normal considerar que um jovenzinho de 16 anos com esse tipo de sensibilidade teria conseguido se opor ao Exército, se convertendo em um “objetor de consciência”.

Provavelmente é essa força interior que se manifesta às vezes nos seres humanos, e que age contra toda forma de conformismo, a que surgiu nele quando tinha apenas 12 anos e decidiu viajar sozinho em transporte público até Paris a fim de visitar uma exposição de seus mestres Gauguin e Van Gogh.

“Imagine que um senhor que ia no mesmo ônibus perguntou onde estava a pessoa que me acompanhava e ao ouvir minha resposta de que eu viajava sozinho, reagiu imediatamente dizendo que não era possível que um jovenzinho de minha idade fizesse essa viagem da Alemanha até Paris.” No entanto ele nos relata esse episódio com uma áurea de orgulho em seu rosto, como para nos confirmar do que era capaz a essa idade.

A Arte deve ser um espaço aberto a todos.

Como nasceu sua motivação pela arte contemporânea? “Porque em cada pessoa há um artista”, responde parafraseando seuimg 4263 compatriota, o artista Joseph Beuys, a quem admira por sua ampla visão da arte e por seu interesse a democratizá-la.
Foi na Documenta de 1977, exposição quinquenal consagrada à arte moderna e contemporânea (quando foi criada por Arnold Bode em 1955 ocorria a cada quatro anos) na cidade de Cassel (Kessel em alemão), que Schunke conheceu Beuys, o qual influenciou sua forma de perceber e transmitir os conhecimentos relacionados com o mundo artístico.

Assim como Beuys, que interpelava seu público com temas como humanismo ou sociologia, o artista genebrense também nos questiona sobre o papel da arte na nossa sociedade atual. Ele nos estimula a compreender que a arte deve ser um espaço aberto e não considerá-la como um objeto, a não ser como uma forma de se implicar socialmente.

Se o trabalho de Bueys permitiu criar o conceito de “escultura social” que se inclina à organização entre a sociedade e a política, para Thomas Schunke a arte é um espaço que deve ser aberto a todo mundo. A arte para ele é um “ato político manifesto”. Foi o que ocorreu quando criou a “orquestra de latas de cerveja”, que reuniu pessoas de diferentes horizontes, as quais executavam uma melodia de fundo com latas vazias enquanto ele lia um texto de estilo vanguardista diante de um público ávido por nova poesia nos tempos em que cada um de nossos atos parece servir de objeto de comércio.

A arte é um meio de integração?

img 4269“Claro que sim, o trabalho artístico, a música, a cultura, isso que hoje chamamos etno ou a world music são ferramentas de integração, mesmo se parecemos nos conformar neste mundo cada vez mais globalizado”, afirma este que, em suas horas livres dá aulas sobre cinema na escola de artes decorativas de Genebra.

Eu me fixei dois objetivos com meu trabalho: o primeiro é fazer compreender que todos nós, sem exceção, temos o direito de nos expressarmos. Para mim, a arte forma parte da vida e é por isso que devemos nos implicar. Em segundo lugar, penso que cada um de nós deve encontrar seu próprio caminho”, diz, convencido, esse artista que para chegar a tal conclusão teve que passar por muitas dificuldades, a exemplo de muitos artistas célebres.

Claro que encontrar seu próprio caminho não é coisa fácil, muito menos viver de sua arte. Durante os 23 anos de sua permanência na Suíça, Thomas Schunke teve que atravessar as dificuldades próprias de quem vem do exterior. No entanto, para ele os obstáculos foram matéria-prima de transformação, como suas esculturas feitas de madeira flutuante encontrada às margens dos riachos da zona rural de Genebra, as quais ele dá vida por meio de diferentes formas.

Se a arte contemporânea é um meio de integração social que permite o acesso à cultura e à vida de um país, nós nos perguntamos como anda atualmente esse processo em uma cidade como Genebra. “Se a arte contemporânea pode ser uma ferramenta que serve para facilitar a comunicação entre os indivíduos de um grupo, lamentavelmente ela está condicionada pelas mudanças sociais. No caso de nossas sociedades ocidentais, isso se encontra estritamente ligado ao desenvolvimento do neoliberalismo”, afirma Schunke contrariado.
“A arte contemporânea se tornou um meio de especulação que é usado pelos mais ricos como uma forma de se distinguir”, observa nosso entrevistado. Sua reação parece normal, mas através do tempo sempre foi assim, aqueles que pagam caro para obter um objeto de arte creem se apropriar ao mesmo tempo do talento do autor.

“Para mim é triste constatar que Genebra, a exemplo de outras cidades como Singapura, se converteu em um foco do mercado da arte que favorece aqueles que vendem as obras, mas não seus autores. Eles se preocupam em vender sem se questionar de onde provém esse dinheiro que geralmente não foi obtido da forma mais honesta.”

Thomas Schunke considera a arte contemporânea como um meio de comunicação que ultrapassa as fronteiras da cultura e da educação e que, apesar das aparências, não é uma arte fácil. O artista conclui nosso encontro dizendo que a arte popular serve para aproximar os indivíduos e que portanto não deve ir a leilão.