Senador divulgou nas redes sociais conversa com o presidente onde ele pede inclusão de governadores e prefeitos em apuração, impeachment de integrantes do STF e fala em bater em senador. Pegou mal com Supremo, parlamentares e até apoiadores digitais. Pacheco decide hoje escopo de comissão

“A questão do vírus, ninguém vai curar, não vai deixar de morrer gente no Brasil, é isso.” A frase, dita pelo presidente Jair Bolsonaro no telefonema gravado e divulgado pelo senador Jorge Kajuru (Cidadania-GO) neste domingo sintetiza o que pensa o líder Executivo sobre a tragédia que já ceifou mais de 350.000 vidas no país e talvez explique a inação federal na compra precoce de vacinas e organização do combate à covid-19 que desemboca agora na instalação forçada pelo Supremo Tribunal Federal de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) no Senado. No diálogo, gravado no sábado e divulgado pelo senador em suas redes sociais no domingo, abrindo mais uma crise com os demais poderes, Bolsonaro reclama que a CPI só vai investigar o Governo federal e não governadores e prefeitos. “Se não mudar a amplitude, a CPI vai simplesmente ouvir o [ex-ministro da Saúde Eduardo] Pazuello, ouvir gente nossa, para fazer um relatório sacana”, diz. “Tem que fazer do limão uma limonada. Por enquanto, é um limão que está aí. Dá para ser uma limonada.”

“A CPI hoje é para investigar omissões do presidente Jair Bolsonaro, ponto final”, continua o presidente ao telefone com o senador. “Quer fazer uma investigação completa? Se não mudar o objetivo da CPI, ela vai vir só pra cima de mim. O que tem que fazer para ser uma CPI que realmente seja útil para o Brasil? Mudar a amplitude dela. Bota governadores e prefeitos. Presidente da República, governadores e prefeitos”, afirma Bolsonaro no diálogo. Mais à frente na conversa, aconselha o senador a “peticionar” o Supremo “para botar em pauta o impeachment também”, dando a entender que seria contra os próprios ministros. Kajuru responde que já entrou com procedimento para investigar o ministro Alexandre de Moraes. “Tenho que começar pelo Alexandre de Moraes porque o do Alexandre de Moraes já está lá engavetado pelo Pacheco. Só falta ele liberar”, diz o senador. “Você peticionou o Supremo, né?”, pergunta o presidente. “Sim, claro, entrei ontem, às 17h40”, diz Kajuru, acrescentando que o pedido está com Barroso. “Parabéns para você”, responde Bolsonaro.

No STF o episódio foi visto como um “teatro armado” para constranger os ministros, de acordo com apuração do jornal Folha de S. Paulo. Magistrados ouvidos pelo jornal de maneira anônima dizem acreditar que a conversa não teria sido espontânea, mas sim combinada previamente. “Em tempos estranhos nada surpreende, deixa a todos perplexos”, afirmou o ministro Marco Aurélio Mello. Combinado ou não, o diálogo revela um presidente acuado na tentativa de um contra-ataque ao STF e ao Senado, ao mesmo tempo em que se mostra disposto a aceitar um apaziguamento da situação, ou seja, negociar. Não funcionou e pegou mal no Senado, no STF e até mesmo entre o séquito digital do presidente.

Na semana passada, após tomar decisão liminar onde ordenava a instalação da CPI e ser duramente criticado pelo presidente, o ministro Luis Roberto Barroso afirmou que consultou os outros ministros da corte suprema e contava com o apoio deles. A divulgação do telefonema com ameaças de pedido de impeachment de ministros deve aumentar a coesão dos magistrados entre si, que nesta quarta-feira devem decidir em sessão plenária se ratificam ou não a liminar de Barroso sobre o caso. Não é a primeira vez que o STF determina a instalação de CPIs a pedido da oposição. Em 2005, o Supremo mandou instaurar a dos Bingos, em 2007, a do Apagão Aéreo, e, em 2014, a da Petrobras.

Sem clima no Senado

No Senado o caldo também entornou nesta segunda-feira. Após Bolsonaro dizer a apoiadores na porta do Palácio do Alvorada pela manhã que não tinha autorizado Kajuru a gravar e divulgar a conversa, dando a entender que havia sido traído, o senador disse que o presidente sabia e divulgou outro trecho do diálogo, onde Bolsonaro diz que “se você [Kajuru] não participa [da CPI], vem a canalhada lá do Randolfe Rodrigues para participar e vai começar a encher o saco, daí vou ter que sair na porrada com um bosta desses”. “Se ele deseja paz com a CPI, eu colocar no ar a parte do que ele falou, ele iria arrumar uma briga com todos os senadores. Agora, ele quer, ele vai ter”, disse Kajuru na Rádio Bandeirantes ao comentar os xingamentos. “O presidente devia ter coisas mais importantes para se preocupar do que chamar senador para briga de rua. Não sei ele, mas não tenho idade para participar de briga de rua”, reagiu o senador Randolfe Rodrigues também à Rádio Bandeirantes.

“Chamar senadores de canalhada, dizer que vai dar porrada… isso não é bom e acende um alerta muito negativo para todos nós”, diz um aliado de primeira hora no Senado do presidente que prefere não ser identificado neste momento e vê o clima cada vez pior por ali. “Já estava sendo costurado um entendimento de incluir os governadores e prefeitos na apuração como uma solução de consenso que, no final, também seria ruim para o presidente”, diz. Segundo o raciocínio do aliado, ao tentar dividir as atenções e responsabilidades sobre a condução da pandemia com governadores e prefeitos durante a CPI, Bolsonaro na verdade seria colocado lado a lado com eles e não teria como posar de vítima de perseguição. “E a comparação não é positiva para o presidente frente a alguns de seus principais adversários políticos como o governador de São Paulo”, afirma o senador sobre o tucano João Doria, que trouxe a CoronaVac ao país, produzida no Instituto Butantã e até agora o principal imunizante contra a covid-19 usado no Plano Nacional de Imunização do SUS.

No sábado, o senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE) protocolou um pedido de aditamento da CPI da covid-19 para incluir, nas investigações, atos praticados por agentes de Estados e municípios na gestão de recursos federais —enquanto um grupo de senadores, liderado por Eduardo Girão (Podemos-CE), conseguiu as assinaturas para pedido de abertura de uma segunda CPI, que apuraria especificamente a responsabilidade de governadores e prefeitos. “Para não deixar margem de dúvida, já está apresentado, foi protocolado, e a gente vira esta página e o Governo vai ter de inventar outra desculpa [para não apoiar a CPI]”, disse. Após a instalação da CPI, o pedido precisa ser aprovado por maioria simples.

Na defensiva, o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), por sua vez, disse que vai levar Kajuru ao Conselho de Ética da Casa por ter supostamente gravado e divulgado uma conversa com o presidente sem autorização e a tropa de choque governista tenta se organizar para ocupar os principais postos na inevitável CPI e conduzir seus rumos.

Em meio a esse clima pesado e pressionado pelo STF o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), fez uma consulta à Secretaria-Geral da Mesa para questionar se é possível a ampliação da abrangência da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Pandemia, a fim de incluir governos estaduais e municipais na investigação. O parecer deve ajudar a embasar uma decisão dele nesse sentido. Existe um trecho do regimento interno do Senado segundo o qual “não se admitirá comissão parlamentar de inquérito sobre matérias pertinentes aos Estados”, conforme consta do artigo 146. Pacheco quer que a Secretaria Geral informe se a regra impediria a inclusão.

A previsão é que a leitura do requerimento de seja feita nesta terça-feira no plenário do Senado, o que formaliza a criação da CPI. A partir daí, é aberto prazo de dez dias para que os líderes partidários indiquem os membros. Uma vez definida a composição, começam os trabalhos.

Em meio a isso tudo, é possível especular que a reação do presidente nesta segunda-feira ao imbróglio tenha a ver com a repercussão do caso nas redes sociais bolsonaristas. “O Governo Bolsonaro, que está em seu maior momento de fragilidade digital, encontra em um episódio como esse mais um elemento de fraqueza”, afirma o cientista político Felipe Nunes, diretor da Quaest, que realiza um monitoramento contínuo sobre a popularidade digital de lideranças políticas. “Pegou mal porque expôs Bolsonaro a uma situação inesperada para os seguidores fiéis, que é a de dialogar, negociar com atores do Congresso, buscar apoio, ou seja, fazer política. Ao tentar demonstrar força só mostra fraqueza, quem é forte não precisa fazer este movimento.”

Nunes chama atenção ainda que o caso da conversa gravada e divulgada por Kajuru é um fato político que nasce nas redes sociais. “Como o senador publicou de surpresa nos canais dele, foi um evento 100% digital, a internet ficou sabendo primeiro e repercutiu muito bem antes de chegar na imprensa e virar notícia.”

Aiuri Rebello

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