Quando as correntes ideológicas que apóiam o liberalismo e o livre mercado adotam medidas que, mesmo que contrárias a sua própria ideologia, são aproveitáveis na sua busca constante de benefícios, se mostram satisfeitas e sem a menor culpa por suas contradições, ainda que estas afetem negativamente a sociedade. Porém quando, ao contrário, são tomadas decisões inevitáveis, ditadas pela realidade econômica que não permite a manutenção de medidas artificiais durante um tempo indefinido – como o controle do câmbio ou subvenções veladas à economia – reagem de forma histérica e fatalista em vez de apoiar as adaptações normais do próprio sistema que defendem. Foi o que aconteceu, e continua acontecendo nestes dias, com as medidas tomadas pelo Banco Central Suíço.

Nessa guerra de câmbios, a Confederação tinha adotado a troca do Euro a CHF 1,20, que foi instituída – mesmo não correspondendo à realidade econômica tanto do país quanto internacional – para proteger as exportações e a economia suíça diante das turbulências internacionais. É evidente que esse tipo de medida não poderia ser mantida indefinidamente. Diante das decisões eminentes do Banco Central europeu para ajustar o Euro, as autoridades monetárias suíças tinham a obrigação de intervir.

Em 2011, com crise da zona euro, a moeda européia entra em colapso. Quando os países vizinhos querem mercadorias suíças, têm que pagar preços tão altos que passam a comprar menos, ou pior ainda, renunciam a essas compras. Isso afeta todo o setor da exportação, cujos principais clientes são os países da União Européia, principalmente França, Alemanha e Itália, e leva a um aumento do desemprego, principalmente de altos funcionários, diminuição dos insumos e aumento dos gastos para as comunidades locais e encargos sociais.

Diante desse contexto, o Banco Nacional Suíço – pressentindo um período desastroso para a economia – decidiu, em setembro daquele ano, não permitir que o Euro valesse menos que CHF 1,20. Entretanto essa decisão foi uma aposta que dependia fortemente da conjuntura monetária internacional.

Por três anos o Banco Central suíço resiste bravamente aos diferentes choques provocados pela guerra das moedas internacionais, na qual todas as nações defendem sua economia em um sistema globalizado que começa a se complicar e onde principalmente os países emergentes sofrem as amargas consequências.

Porém, sabendo que a União Européia se prepara para tomar medidas na área monetária, o Banco se antecipou e, com toda lógica e coerência, parou de manter essa falsa taxa mínima. Imediatamente, os setores da economia mais afetados pela medida, como a indústria de maquinários, a relojoaria e o turismo, apelaram para o assassinato econômico ao defenderem a intervenção do banco na economia – intervenção esta totalmente contrária à ideologia que tanto defendem.

Aqueles que juravam de joelhos as virtudes do livre mercado e do liberalismo econômico pedindo menos Estado, menos impostos e mais liberdade para especular e maximizar como quisessem os lucros, os mesmos que alegam as leis de mercado quando a questão é fixar um salário mínimo, limitar o fluxo de trabalhadores estrangeiros ou limitar os salários dos altos funcionários, ou quando se trata de pedir esforços e reduzir os salários dos trabalhadores já castigados pela crise, diminuem os benefícios sociais dos mais pobres ou impõem sem o menor escrúpulo exigências no limite do desumano aos desempregados, estes mesmos se mostram hostis e furiosos quando as leis do capitalismo se voltam contra eles.

Na realidade, sejamos sinceros, nestes três últimos anos, as medidas do Banco Central Suíço se limitaram a uma subvenção velada apenas para as exportações. Isso se chama protecionismo. Foi necessário fazê-lo durante um certo tempo para que a economia pudesse se restabelecer e encontrar um equilíbrio. Porém era lógico, normal e coerente que esse subsídio – contrário a todas as leis do capitalismo e ao princípios fundamentais do liberalismo e do sagrado livre mercado – chegasse ao fim.

O que não é lógico é que, aqueles que sempre defenderam um sistema profundamente injusto, e que são capazes de trair suas próprias convicções para obter mais lucros, e que são indiferentes ao sofrimento da sociedade e às desigualdades que eles mesmos produzem, reagem como vítimas do sistema diante da sociedade, quando, no final das contas, são eles próprios os protagonistas.

Os fundamentalistas do dinheiro são culpados de todas as últimas crises que o mundo viveu e que provocou milhões de mortos de fome, a miséria de milhões de pessoas, a expulsão de numerosas famílias de suas casas e a destruição de sociedades inteiras. Deveriam ser perseguidos e castigados da mesma maneira que o mundo está perseguindo os fundamentalistas islâmicos, pois a capacidade deles de destruição e danos é idêntica ou pior. São eles os principais responsáveis do que está acontecendo nos países do Oriente Médio e de outros lugares do mundo, concentrando riquezas, assassinando, destruindo a natureza e as culturas ancestrais em nome do progresso econômico. Na realidade o que estão fazendo é concentrar o capital e a riqueza nas mãos de 1% da população mundial.

O mundo se engana quando fala de uma guerra de religião ou de civilização. Sim, vivemos uma guerra, mas uma guerra cidadã contra os abusos do poder político e econômico. Uma guerra contra os políticos que, na ânsia de proteger as multinacionais, a especulação financeira, a indústria farmacêutica, a agroindústria, a corrupção, etc., a única coisa que conseguiram fazer é destruir países, humilhá-los e submetê-los para que os bancos possam continuar a especular. E isso é inadmissível, tal como o terrorismo ideológico.

Isso constitui o pior dos crimes contra a humanidade!

Alfonso Vásquez Unternahrer