Escultora, desenhista, pintora, gravadora e professora. Nasceu em Santo André – SP –  1968

Forma-se em educação artística nas Faculdades Integradas Teresa D’Ávila – Fatea, em Santo André, em 1990. Atua no Laboratório de Estudos e Criação na Pinacoteca do Estado de São Paulo e no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo – MAC/USP. Em 2002 cria o troféu para o Prêmio Multicultural Estadão, realizado em São Paulo.

Sandra Cinto inicia sua trajetória na década de 1990, realizando representações de céus e nuvens, contidas em caixas e armários, como em Retábulo (1995). Para a crítica Lisette Lagnado, a artista cria imagens fantásticas, que apresentam afinidade com o trabalho do pintor belga René Magritte (1898-1967). Em seus desenhos, que se destacam sobretudo por ampliarem-se para suportes combinados de maneira pouco previsível, são freqüentes as escadas, pontes, abismos, candelabros, velas acesas e árvores sem folhas e frutos. Neles, ela revela admiração pela obra de Leonilson (1957-1993).

Sandra Cinto apropria-se freqüentemente de fotografias, por vezes retratos seus de infância ou atuais, que são associadas a outros objetos, como esculturas de madeira que simulam livros ou camas. Como nota o historiador da arte Tadeu Chiarelli, todos esses suportes ou elementos formam um ponto de encontro e difusão de infinitas narrativas, jamais concluídas, e comumente se configuram como soluções concebidas para espaços específicos.

 A artista traz para sua produção a desestruturação de certos conceitos formalistas, sobretudo aquele voltado para a busca das especificidades de linguagens, aliando em seus trabalhos procedimentos diversos, como o desenho, a escultura e a fotografia. Como aponta ainda Chiarelli, em sua produção há obras em que sonho e realidade parecem coexistir em silenciosa e contraditória harmonia.

Sandra Cinto irrompeu na paisagem contemporânea com uma representação anacrônica do espaço celestial, colorações serenas e atmosferas noturnas. De início, parecia reivindicar um lugar para uma pintura complacente do mundo. Mas a enorme mansidão dos quadros, paradoxalmente a seu caráter humilde, se impunha como força incontornável. Aos poucos, o tom foi declinando dos azuis e cinzas, e o rubor intempestivo das nuvens bem poderia aludir às ondas de um oceano revolto, índice do temor frente à incomensurabilidade da Natureza – tema tratado mais recentemente na sua instalação para a Capela do Morumbi, transformada em grande embarcação alegórica dotada de velas brancas de ponta-cabeça.

Então, num refluxo presumível, os céus começam a caber dentro de pequenas caixas (destrancadas), armários (entreabertos) ou retábulos de madeira nova e clara – todo um mobiliário que evoca vias (bloqueadas) de passagem de uma dimensão para outra, acesso possível apenas no imaginário fantástico.

A artista vai recorrer ao estilo onírico de Magritte, não mais para extrair-lhe seus enigmas poéticos, mas em busca do valor simbólico da imagem: a gaiola, lâmpadas acesas em pleno dia, um morango ou uma maçã no firmamento da história da arte. A configuração sensual (e feminina) do fruto – exuberante e desproporcional – reluz tal um ´astro´ no centro de seus céus.

Coerente com o vocabulário do sublime, Sandra Cinto assimila a luz em suas esculturas.

 Um lavrado de traço fino e cuidadoso desenha florestas povoadas de formas longilíneas, escadas, troncos, lágrimas, nuvens, gaivotas, lustres e velas acesas. O etéreo, que emanava da matéria rala e embaçada dos céus metafísicos, ganha um aspecto palpável com a incrustação, na altura do abdômen da parede, de uma flauta modificada e fundida em bronze, ao mesmo tempo afirmativa e ´doce´.

O culto às formas em suspensão tem, ângulo reto, a tensão necessária para fazer frente à quase dissolução das linhas.

Aplausos, Sandra Cinto