18% da miséria no país se concentra na região Norte. Faltam políticas públicas contra a fome; Agronegócio devasta florestas, empareda agricultura local e culturas alimentares são engolidas por atravessadores e corporações.Foto: Janailton Falcão

O mal da fome, que voltou a estar em evidência ao longo da pandemia de Covid-19, não pode ser atribuído somente à conjuntura mais recente, em que houve um aumento significativo da perda de renda e aumento do desemprego. O crescimento dos graus de insegurança alimentar no mundo todo é observado com mais intensidade desde 2015, segundo o doutor em Relações Internacionais Mário Tito Barros Almeida. “Não obstante os avanços tecnológicos, a globalização e todos os aspectos de inter-relação entre os países, temos o aparecimento e o acréscimo da fome no mundo. (…) Populações não têm o que comer por causa de guerras, por causa da pobreza interna de seus países, por conta de desigualdades regionais, por conta de políticas governamentais completamente erradas e equivocadas”, resume.

Em 2018, informa, dois anos antes dacrise sanitária global, “o mundo apresentava mais de 800 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar grave”. Os números atuais, pontua, “mostram que estamos passando de 900 milhões de pessoas nessa situação, quase retornando a um patamar do século passado, de um bilhão de pessoas que sofrem do mal da fome no mundo; é praticamente uma China que passa fome”.

Na última quinta-feira, 24-06-2021, Mário Tito Barros Almeida ministrou no Instituto Humanitas Unisinos – IHU a palestra virtual “Fome e soberania alimentar na Amazônia e no Brasil”, na qual reflete sobre o modelo de produção concentrado em oligopólios internacionais, o aumento da fome no mundo, sua incidência no Brasil, particularmente, nas várias “Amazônias”. “Temos várias ‘Amazônias’, mas temos, porém, um problema único: a Amazônia é rica, mas ela não produz riqueza; ela produz ricos”.

A seguir, publicamos a palestra no formato de entrevista.

Mário Almeida (Foto: Unama)

Mário Tito Barros Almeida é doutor em Relações Internacionais pelo Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais da Universidade de Brasília – UnB, mestre em Economia pela Universidade da Amazônia – Unama, graduado em Filosofia pela Universidade Católica de Brasília – UCB, em Teologia pela Università Pontificia Salesiana, em Roma, e em Economia pela Unama. Atualmente é docente da Unama, da Faculdade Católica de Belém e da Faculdade Cosmopolita.

Confira a entrevista

Hoje fala-se em insegurança alimentar. Isso significa que a fome continua sendo um problema no século XXI?

A questão da fome é uma realidade tristemente contemporânea no mundo, no Brasil e na Amazônia. A primeira coisa que gostaria de dizer é que quando falamos em fome, não estamos falando no sentido de “sentir fome”. Sentir fome é uma questão biológica: sinto fome e em seguida satisfaço esse desejo e não sinto mais fome. Não me refiro também ao sentido de “passar fome”, porque isso implica um período específico e há o vislumbre de, em seguida, ter o alimento. Quando falo em fome, trato do mal da fome, de uma perspectiva de desumanização que nasce da ausência de alimentos.

A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura – FAO trabalha muito mais com o conceito de segurança alimentar para falar de fome: segurança alimentar leve, moderada e grave. Nós chamamos isso de fome porque, mais do que qualquer coisa, fome não é uma questão de produção, é uma questão de política. Ou seja, o mal da fome tem raízes na relação de poder da sociedade. Ao mesmo tempo, precisamos avançar no conceito de segurança alimentar que é preconizado pela FAO e que garante, de alguma forma, que todo ser humano deve ter qualidade e quantidade de alimento para ter uma vida digna.

Segurança e soberania alimentar

A proposição da minha fala é avançar no conceito de segurança alimentar para alcançar o conceito de soberania alimentar, que é mais do que segurança, apesar de não eliminar o conceito de segurança. Por soberania alimentar estamos nos referindo à capacidade dos povos de proverem alimentos a despeito da dominação de tantas corporações alimentares no nosso modo de comer. Soberania alimentar é a valorização da produção de alimentos mais regionais a partir dos conhecimentos tradicionais.

Quantas pessoas ainda passam fome no mundo e no Brasil?

Quando falamos em números, estamos falando não em entidades abstratas. Números representam vidas humanas, pessoas que sofrem do mal da fome e por isso perecem. Em 2018, o mundo apresentava mais de 800 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar grave. Esse número é anterior à pandemia, ou seja, já havia um número enorme de famintos no mundo. Os números atuais mostram que estamos passando de 900 milhões de pessoas nessa situação, quase retornando a um patamar do século passado, de um bilhão de pessoas que sofrem do mal da fome no mundo; é praticamente uma China que passa fome.

Só na América Latina existem mais de 40 milhões de famintos. São números que nos fazem pensar que essa situação é assustadora. Em 1991, esse número era de um bilhão. Esse contingente foi diminuindo e, de 2000 até 2015, houve uma subida e depois uma descida muito grande no número de famintos no mundo. Isso se deve, em parte, aos Objetivos do Milênio, que preconizaram, como seu primeiro objetivo, erradicar a fome e a miséria do mundo. Óbvio que era um objetivo altamente supervalorizado: como, em 15 anos, se conseguiria erradicar a fome e a miséria do mundo? Mas houve uma diminuição no número de famintos, apesar de ser uma diminuição pífia a despeito do objetivo.

Retorno da fome

O que se percebe é que este número voltou a crescer a partir de 2015. Populações não têm o que comer por causa de guerras, por causa da pobreza interna de seus países, por conta de desigualdades regionais, por conta de políticas governamentais completamente erradas e equivocadas. Esses números nos trazem a certeza infeliz do retorno da fome.

O que me interessa mostrar é que não obstante os avanços tecnológicos, a globalização e todos os aspectos de inter-relação entre os países, temos o aparecimento e o acréscimo da fome no mundo. Do ponto de vista das relações internacionais, vamos perceber que a partir dessa data aparece o retorno da unilateralidade: é como dizemos aqui na Amazônia – e deve haver um ditado parecido no Sul e Sudeste – “farinha pouca, meu pirão primeiro”. Ou seja, quando tenho pouca coisa, quero pegar o meu e não me interessam os outros. Parece que o mundo entrou nessa perspectiva a partir de 2015.

O dado que quero trazer para vocês é o de 2021, do Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia de Covid-19 no Brasil. Alguém um pouco mais afoito pode dizer que a fome aumentou no Brasil e no mundo por causa da pandemia. É verdade que a pandemia aumentou a perspectiva da ausência de alimentos, mas não é verdade que a fome é fruto da pandemia. A pandemia veio agravar uma situação que já vinha sendo deteriorada. Essa pesquisa recente [Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia de Covid-19 no Brasil] traz o retrato atual da fome no país. Do total de 211,7 milhões de pessoas, 116,8 milhões conviviam com algum grau de insegurança alimentar e, destes, 43,4 milhões não contavam com alimentos em quantidade suficiente para atender suas necessidades. Além disso, 19 milhões de brasileiros estão tendo que enfrentar a fome sem perspectiva de melhora ou de conseguir algum tipo de acesso aos alimentos. Quando o Brasil chega a fazer uma campanha de que panela vazia não pode permanecer vazia, é sinal de que alguma coisa está errada num país que tinha saído do Mapa da Fome de 2003 até 2014. Alguma coisa aconteceu, do ponto de vista estrutural, para que um país que foi modelo na erradicação da fome permitisse que, em cinco anos, 20 milhões de brasileiros estivessem passando fome.

Como essa realidade se manifesta nas grandes regiões brasileiras, como a região Norte?

Essa realidade se torna mais grave quando analisamos as grandes regiões. Percebemos que na região Norte, de 15 milhões de brasileiros, somente seis milhões vivem em situação de segurança alimentar, portanto nove milhões já passam algum tipo de necessidade em relação ao acesso a alimentos. Não podemos normalizar essa situação. A fome existe, dói e mata.

Aquela pesquisa que referi anteriormente também mostra como a alimentação veio piorando durante a pandemia: 59,4% das famílias tiveram problemas com alimentação. O mais interessante disso é que há um recorte de gênero, raça, cor, renda, de contextos regionais e características domiciliares onde a fome está presente. Portanto, a fome é resultado da ausência ou da desconstrução de políticas alimentares para os estratos mais pobres da sociedade. Isso fica claro quando percebemos a perspectiva de que, entre 2004 e 2013, o número de famílias que estavam em situação de segurança alimentar cresceu de 64% para 77%. De 2013 para cá, o que se observa é uma queda vertiginosa desse número de famílias: de 77% para 44%. Todos os graus de insegurança alimentar têm crescido, de modo que a insegurança alimentar grave quase que dobrou de 2018 até 2020. Percebemos que o problema existe de maneira grave e hipócrita porque 820 milhões de pessoas passam fome no mundo, 41 mil toneladas de alimentos são jogadas fora por dia no Brasil e 127 milhões na América Latina, que se perdem no manuseio, no transporte, no abastecimento, na colheita, na casa dos consumidores e nos supermercados. De um lado, somente no Brasil, 20 milhões de pessoas passam fome e 41 mil toneladas de alimentos são jogadas fora, ou seja, vivemos num país desigual.

O dado mais sério, portanto, é humano: o mapa humano da fome é grave demais porque a fome está presente nos lares chefiados por mulheres, pessoas de cor e pessoas de baixa escolaridade. Ou seja, o reaparecimento da fome significa o retorno de pessoas para classes sociais mais baixas por questões de renda, de desemprego e de problemas estruturais macroeconômicos do país.

(Foto: Rede Penssan)

Como essa realidade se manifesta na Amazônia?

A Amazônia é formada por vários estados e costumo dizer, nas minhas aulas, que não temos uma Amazônia, mas várias “Amazônias”: a Amazônia onde eu estou, em Belém do Pará, próximo ao Oceano Atlântico, é diferente da Amazônia de quem está em Manaus, bem no meio da floresta, banhada pelo Rio Negro, que é diferente de quem está em Porto Velho, muito mais integrado à dinâmica do Centro-Oeste, que é diferente de quem está em Boa Vista, em Rio Branco. Ou seja, temos várias “Amazônias”, mas temos, porém, um problema único: a Amazônia é rica, mas ela não produz riqueza; ela produz ricos. A Amazônia é rica na sua biodiversidade, mas é pobre para as pessoas que aqui estão. Essa dicotomia se revela no número expressivo do mapa geográfico da fome: 18% dos lares na região Norte estão em situação de insegurança alimentar grave. Isso não é dado de ontem; é dado deste ano. Então, percebam como o flagelo da fome toca forte em nós que moramos na região amazônica.

Política agrária

O que mais fica claro para nós é que, estruturalmente, não existe razão de haver fome no Brasil. Ou seja, se olharmos a produção de alimentos do ponto de vista estrutural, ninguém no Brasil deveria passar fome. O país tem 160 milhões de hectares de terras agrícolas que se encontram paradas, não estão sendo fatores de produção, ou seja, não tem produção. Isso significa uma região que é cinco vezes o tamanho da Itália. Eu sou servidor público concursado do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária – Incra e posso falar muito à vontade porque verifico isso por meio dos dados do meu sistema no Instituto: temos, sim, muita terra agrícola parada. Ou seja, o Brasil não tem alimentos, mas tem terra agrícola parada. Esse é o ponto de vista agrário.

Política agrícola

Vamos olhar do ponto de vista agrícola: desse ponto, a nossa produção de alimentos é absurdamente alta. Se formos somar todos os cereais que produzimos no Brasil em um dia, e formos dividir por cada pessoa que vive neste país, cada um receberia mais de três quilos de cereais. Isso já garante uma qualidade nutricional alta para cada pessoa. Se pegarmos a produção de toneladas de arroz – o Brasil produz 11 milhões de toneladas de arroz –, daria meio quilo de arroz por dia por família. Quem é dona/dono de casa sabe o que significa meio quilo de arroz para uma alimentação. O Brasil também produz 100 milhões de toneladas de milho. Só esses dados nos fariam perceber que alguma coisa não está certa nessa história: há um aspecto gerador de fome e isso não ocorre nem pela vontade de Deus e muito menos por uma questão de produção.

O tamanho do problema, portanto, é muito alto. Temos escolhas macroeconômicas neste país que levaram a um dólar muito convidativo e, em linhas gerais, existe uma regra escondida na economia, que diz o seguinte: tudo que é raro, é caro. Ora, quando o dólar está muito alto e, portanto, o real desvalorizado, significa que temos pouco dólar circulando na nossa economia, fazendo com que a nossa moeda se desvalorize. É interessante isso quando contrapomos e aproximamos as notícias que nos chegam, por exemplo, de investidores diretos deixando o país, ou seja, deixando de investir no país. Investimento direto é aquele que cria empregos, cria fábricas e uma dinâmica de clusters ao redor de determinado investimento. Mas, ao mesmo tempo, o investimento indireto também está saindo do país, ou seja, nem temos o investimento que gera a produção nem temos o investimento que aumentaria a quantidade de dólar para mantê-lo num patamar mais ou menos aceitável. O dólar mais convidativo significa que mais convidativa é a exportação. O que o Brasil produz desde a sua época colonial? Produto primário-exportador; mais do que isso, produz alimentos: pecuária, soja, produtos de um agronegócio cada vez mais intensivo que serve para a exportação.

Vi um mapa muito interessante que mostrava a quantidade de bois e de pessoas vivendo nos estados brasileiros. Para terem uma ideia, em Roraima, no Pará, no Acre, no Maranhão, no Centro-Oeste, em Minas Gerais e no Rio Grande do Sul tem mais boi do que pessoas. Para nós, na Amazônia, aconteceu um problema muito grave: a nossa colonização foi pautada pela pata do boi. A produção agropecuária na região ditou o avanço do território e, sob este aspecto, estamos vivendo uma situação paradoxal: somos um dos maiores produtores de carne bovina do Brasil e, como o dólar está convidativo, exportamos essa carne, portanto o que resta aqui é pouca carne. E, novamente, o princípio se aplica: aquilo que é raro, é caro. O preço da carne aqui está horrível; ninguém mais come carne bovina.

Então, este é um dos problemas em relação às commodities: o Brasil atrelou, na sua política macroeconômica, os produtos ao mercado internacional, às vezes sem necessidade, e estamos pagando mais caro por isso. Além disso, tem toda a escolha que o atual governo fez, de apoio ao agronegócio. Na verdade, o problema nem é o apoio ao agronegócio, mas a falta de incentivo à agricultura familiar. Nós, aqui na Amazônia, sentimos fortemente isso porque muitos dos trabalhadores rurais na Amazônia são agricultores familiares, mas a dinâmica agrária, agrícola e ambiental, enviesada por políticas macroeconômicas enviesadas, mostra que os agricultores familiares estão empobrecendo e vivendo à míngua. Além desse problema, temos um aumento de preços, uma inflação de produtos, e fica claro que se trata de uma inflação de produtos de primeira necessidade. Ou seja, é uma realidade que está punindo cada vez mais as populações de baixa renda. Aliado a isso, há a diminuição de renda, porque temos um desemprego de no mínimo 14 milhões de pessoas – os dados não são mais tão confiáveis porque nem investimento no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE existe mais. A falta de um auxílio governamental ou um auxílio emergencial pífio durante a pandemia também agravou o quadro.

A junção desses fatores pode estar nos levando a um efeito bombástico que vai prejudicar a produção de riqueza no país. Todos sabemos que produção de riqueza em um país é fruto do gasto do governo, do investimento das empresas e do consumo das famílias. Quando as famílias consomem? Quando elas têm renda. E quando elas têm renda? Quando têm emprego. Se não têm renda e não têm emprego, as pessoas não consomem e, se não há consumo, as empresas investem menos. Se esta equação está certa – e a ortodoxia econômica afirma que está –, precisamos verificar qual é o papel do Estado nesse processo. Se o Estado agir a favor do que está aí, vamos ver a miséria aumentar.

Como a atual produção de alimentos global impacta as realidades locais?

Hoje, nós somos todos interdependentes. Vivemos no mundo da complexidade e da interpendência. O mundo está fazendo uma transição de poder, quase que um retorno à Ásia, ou seja, a transição de poder trouxe de volta a China e, nesse sentido, cada um vai buscar estabelecer as suas relações.

O que eu gostaria de destacar no que diz respeito à fome é que a produção de alimentos no mundo não é isenta de jogos de poder: temos uma relação tridimensional entre o Estado, as grandes corporações transnacionais e a sociedade civil. Se formos colocar a lupa sobre a questão da fome no mundo, vamos perceber que existe uma geometria cratológica – de estudos de poder –, uma geometria das relações de poder.

Na Amazônia, percebemos o avanço de empresas de mercado, sejam as transnacionais envolvidas no processo de produção de alimentos na Amazônia, sejam as empresas brasileiras que fazem comércio exterior fortíssimo, como a JBS, por exemplo. De outro lado, há uma tentativa de resistência da sociedade civil global na luta pela terra, pelas sementes, pela produtividade, pelos recursos tecnológicos e pela assistência técnica. Em contrapartida, às vezes, não se sabe exatamente de que lado o Estado está.

Oligopólio da produção alimentícia

Para não pensarmos que a fome é algo que está fora da perspectiva da produção de alimentos internacional, neste gráfico da Oxfam (abaixo), destacam-se as dez principais corporações transnacionais que dominam o mercado de alimentos no mundo. Quando falo de mercado de alimentos, estou me referindo desde o momento da aquisição de terras, sementes, insumos iniciais para a produção, todo o processo produtivo, toda a logística de distribuição, alcançando, inclusive, o varejo.

(Foto: Oxfam)

Percebam que, por exemplo, a Johnson & Johnson, que achávamos que produzia shampoo para não irritar os olhos das crianças, é uma empresa que domina também todo o mercado de alimentos, assim como a Unilever, a Nestlé, a Coca-Cola etc. É um pequeno grupo de oligopólio internacional dominando toda uma cadeia produtiva de alimentos. Portanto, não tem somente o domínio do mercado, mas o domínio dos modos de comer, aquilo que Michel Foucault chama de “produção de verdades”, de “práticas discursivas”, ou seja, se definem os modos corretos de comer e se impõe essa verdade, silenciando outras possibilidades de pensar diferente.

Além disso, tem as empresas que controlam o mercado de transgênicos, como a Syngenta, a Monsanto, a Bayer, a Basf. Quando eu era mais jovem, pensava que a Basf produzia fitas K7 para escutarmos música, mas, de alguma forma, ela foi criando possibilidades dentro da indústria química e se tornou um gigante da área. Essas são as mesmas empresas que também dominam o mercado de agrotóxicos.

FAO

Essa é a realidade, uma realidade que nos impacta, que nos leva a perguntar qual é o papel da FAO nesta história. A FAO é uma organização intergovernamental, ou seja, reúne Estados nacionais e, em tese, deveria ser uma organização que deveria buscar solucionar o problema da agricultura e da fome no mundo e, ao mesmo tempo, buscar assistência técnica para os países resolverem essas questões. Ela faz isso de maneira muito interessante. Na minha tese de doutorado, busco entender qual é a influência das grandes corporações internacionais exatamente nas decisões da FAO. Vejam que é uma situação muito densa, porque nem tudo que a FAO fala é isento dos interesses das grandes corporações. Ao mesmo tempo, há um empenho das ONGs para influenciarem também a FAO diante de suas resoluções. Por exemplo, a Via Campesina vem fazendo muitas gestões junto à FAO para que possa crescer além da ideia de segurança alimentar e nutricional.

Se queremos falar em fome, precisamos entender que o processo inicial é o seguinte: não basta dar o alimento, é preciso fazer com que este alimento seja de qualidade nutricional capaz de garantir uma vida que seja saudável, ativa. Portanto, a segurança é alimentar e nutricional. De alguma forma, quando olhamos para a produção de alimentos das grandes corporações, muitas vezes constatamos que não são nem nutrientes nem alimentos. Muitos são falsos alimentos, condenados, inclusive, pela Organização Mundial da Saúde – OMS.

Realidade amazônica – fome invisível e invisibilizada

Quando alguém diz que está com fome e outro dá um prato de comida, isso é altamente louvável. Ou seja, temos uma situação de ajuda humanitária. Mas isso não basta, porque ao ajudar, não estou questionando a estrutura vigente que provocou aquela ausência de alimentos. Nesse sentido, a primeira coisa a ser dita é que as urgências precisam ser respondidas como urgências. Ou seja, se tem gente passando fome, vamos arrecadar alimentos e vamos doar. Isso é fundamental. Porém, o mal da fome exige planejamento, programação, foco nas causas, ações afirmativas, ações com vários atores sociais. O foco – e isso vale muito para a Amazônia – tem que ser a agricultura familiar.

Nós temos uma situação própria na região onde estou, no Nordeste da Amazônia, que é a situação de famílias ribeirinhas. A Amazônia tem uma fome que é invisível e invisibilizada. É invisível porque não é capturada pelas várias pesquisas. O máximo que nós temos é uma pesquisa do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente – PNUMA, que mediu o Índice de Desenvolvimento Humano Municipal – IDHM dos municípios alguns anos atrás. Naquela lista dos municípios, os 20 piores em IDHM estão localizados na Amazônia. O último colocado é o município de Melgaço, no Arquipélago do Marajó, do outro lado da Baía do Guajará. E, ao mesmo tempo, a fome é invisível porque ninguém fala nela. Todo mundo que pensa em conhecer Belém ou que conhece Belém, vai ver uma orla lindíssima, as ilhas, a produção de açaí, de peixe, de camarão – e as pessoas pensam que aqui ninguém passa fome. Mas a produção de açaí e camarão é sazonal ou já está vendida para atravessadores, e a população é pobre. Quando não há investimento na agricultura familiar, as pessoas passam fome. Então, é preciso entender que há uma saída: a soberania alimentar.

Quando falamos em segurança alimentar e nutricional, estamos falando de quantidade e qualidade do alimento, mas também de um alimento preparado segundo os saberes tradicionais e, neste sentido, a soberania alimentar é resistência. Já falava Foucault que onde tem poder também tem resistência. Nesse sentido, a soberania alimentar define que o mais importante é investir em um modo de produção familiar. É importante ouvir as populações tradicionais para impedir a padronização dos modos de comer e modos de comer não-alimentos. É importante trabalhar na linha da agroecologia, tentando ser o mais livre possível de agrotóxicos e fertilizantes que possam prejudicar nutricionalmente os alimentos. É importante, para buscar terra para a agricultura familiar, uma verdadeira reforma agrária. Na minha dissertação de mestrado, discuti reforma agrária no Brasil e o que percebemos é que mesmo no Segundo Plano Nacional de Reforma Agrária, no governo Lula, apesar dos muitos avanços com a valorização da mulher trabalhadora, dos quilombolas, das populações tradicionais, mesmo assim muita coisa não foi feita exatamente porque não se chegou a um pacto mais civilizatório de enfrentamento da pobreza no meio rural.

Nós, na Amazônia, temos consciência de que estamos no centro das discussões internacionais especialmente por conta das questões ambientais. Também sabemos que temos graves problemas fundiários, agrários, que há um avanço da lógica do mercado, do capital, ampliando fronteiras agrícolas que vão servir aos grandes produtores para exportação. Sabemos e sofremos as consequências disso. O que mais nos dói deste ponto de vista é perceber que isso não está levando à valorização do homem da Amazônia. No Brasil existe um divórcio muito forte entre as áreas agrícola, agrária e ambiental. Em muitos governos sempre tivemos, claramente, um Ministério do Meio Ambiente, outro da Agricultura e outro do Desenvolvimento Agrário – no governo Lula – que não conversam entre si, porque o Ministério da Agricultura é destinado ao agronegócio, o do Desenvolvimento Agrário à agricultura familiar, e o do Meio Ambiente a áreas que hoje são cobertas pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade – ICMBio. Ou seja, a falta de diálogo entre os ministérios gera políticas discrepantes.

Não podemos ficar calados quando percebemos que aumentou o tráfico de madeira ilegal enviada para fora do país, que age por regiões da floresta que ninguém consegue mapear porque as fronteiras são porosas. Vemos ainda que o próprio governo está assumindo essa ação devastadora sobre a nossa região. Quando se cria uma comissão para a Amazônia, sem ter nenhum governador dos estados da Amazônia presente, sem ter nenhum representante da sociedade civil, e ninguém para defender a própria região, certamente isso terá um rebatimento no aumento da miséria e da fome.

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Não quero concluir com uma mensagem de desesperança apesar da realidade da fome nos deixar acabrunhados, decepcionados, para baixo. Gostaria fazer uma reflexão – porque estou [falando] para uma universidade jesuíta – fazendo relação com o grande jesuíta, o Papa Francisco, e com o fundador dos jesuítas, Inácio de Loyola, que deixou como mote principal “Ad maiorem Dei gloriam” [Para a maior glória de Deus], e juntar isso com o pensamento de outro santo, chamado Irineu: se é verdade que nós fazemos tudo, como diz Inácio de Loyola, para a maior glória de Deus, é também verdade, como diz Santo Irineu, que a maior glória de Deus é a vida [o homem vivo]. E o Papa Francisco entendeu muito bem isso quando fala de uma economia que vai além da lógica do mercado. A Economia de Francisco, assim chamada, nos pede para valorizar ainda mais as relações que vão além da lucratividade. Isso tem a ver com uma mentalidade que nos inspira. Na multiplicação dos pães é muito interessante pensar assim: cinco mil pessoas estavam acompanhando Jesus e, de repente, os discípulos perguntam como vão dar de comer a todas essas pessoas e Jesus faz uma “pegadinha”. Ele diz: “vão comprar” – usar o mercado – e os discípulos dizem que não têm dinheiro para isso. Então, se não tem dinheiro, se o mercado não pode prover, Jesus faz o milagre da partilha com dois pães, três peixes e reza. E depois, não deixa sobrar, recolhe tudo para não estragar. Desse ponto de vista, quero dizer que a humanidade só vai superar o problema da fome quando ela não seguir mais a lógica do mercado, do lucro. Mesmo num sistema que seja assim, é possível trabalhar por uma ética mais humana.

Mário Tito Barros Almeida, em entrevista ao IHU Online

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