Evo Morales nunca foi um ditador, a Bolívia nunca viveu uma tirania comunista. O discurso da extrema direita neopentecostal é sempre o mesmo, seja no Brasil, no Chile ou nos Estados Unidos, eles vivem no tempo das Cruzadas.

A luta é da «civilização judaico-cristã» contra o fantasma do comunismo. Para eles, todos os governos que não seguem os preceitos da extrema direita internacional, comandados por Steve Bannon e cuja expressão máxima é Donald Trump, são ditaduras comunistas e todos podem atacá-los, como podemos vê-lo na Bolívia.

O que acontece ?

O erro de Evo Morales foi tentar um quarto mandato contra a maioria da população, que votou 51,5% contra ele no referendo de 21 de fevereiro de 2016. Tentar um quarto mandato em nome dos direitos humanos não é um argumento. Uma candidatura não é um direito humano, mas um direito político.

Ninguém é insubstituível

Você vota ou deve votar em um processo, em uma ideia, em uma concepção de sociedade e não em pessoas.

Elas simplesmente representam as expectativas e exigências da sociedade.

O povo soberano significa que a força política reside no povo. Podemos observar nos últimos movimentos ao redor do mundo que esse conceito deixou de ser abstrato. No Líbano, Sudão, Tunísia, França, Chile e Equador, vimos a população sair às ruas para lutar por seus direitos.

O poder está no povo soberano que nenhum governo, sob qualquer pretexto, pode violar.

O inimigo não deve ser alimentado

Os erros e contradições da esquerda, como os movimentos populares, alimentaram o monstro encarnado no neoliberalismo, os movimentos evangélicos e neopentecostais, apoiados pelos Estados Unidos e seu projeto de dominação mundial. A extrema direita não esconde suas intenções, muito pelo contrário, continua a crescer na Espanha e está instalada na Hungria, Polônia, Colômbia e Brasil. Alega, em voz alta e clara, uma defesa dos valores da família, religião e propriedade.

Muitos que gritam nas ruas da Bolívia querem impor uma teocracia neoliberal, com um discurso anticorrupção.

Diante desse ataque maciço, a esquerda tem a obrigação de se autocríticar e superar suas contradições.

Como é possível que os governos da consertação de Lagos e Bachelet nunca conseguiram modificar a constituição de Pinochet? Como a educação, a saúde, a água e as pensões continuaram em mãos de particulares no Chile? Trinta anos de frustração levaram os chilenos à situação atual.

Cabe às forças progressistas combater o culto da personalidade e o caudilismo que causaram e causam tantos danos.

Os povos exigem mais participação e mais democracia direta. A democracia deve nascer de fundamentos, de movimentos associativos, de organizações populares, de sindicatos, de organizações estudantis e de artistas organizados para democratizar a arte e a cultura.

É necessário pôr um fim ao conceito de estado paternalista, que pensa ser o único a ter as soluções e impor suas decisões de acordo com seus próprios interesses, sem consulta popular.

O melhor exemplo que temos desse estado popular é a Suíça e sua democracia direta, onde o executivo, ou Conselho Federal, é composto por 4 partidos majoritários.

O estado mínimo

Já vimos aonde a teoria liberal do estado mínimo leva. Transforma a sociedade em um grande mercado, cidadãos em consumidores e direitos em mercadorias. Tudo é vendido e comprado. Em nenhum caso o Estado deve participar ou regular o mercado. Mas o setor privado é voraz. Para eles, o social é um terreno perdido, não é um investimento para o futuro. Tudo é reduzido a lucros e dinheiro. A felicidade não é conseqüência de uma vida equilibrada e serena, é o resultado da aquisição de um máximo de produtos.

O grande slogan do liberalismo é: trabalhar, consumir e calar a boca!

O estado liberal está em crise

Setenta anos após a imposição na maioria dos países ocidentais, ele agora é produtor de concentração de riqueza e desigualdade, como Emmanuel Macron reconheceu em seu discurso no fórum pela paz em Paris nesta semana . Grandes empresas, multinacionais e bancos, em nome dos lucros, jogaram a ética e a moral no lixo e, de acordo com o princípio de que o fim justifica os meios, incentivaram o assassinato de líderes sindicais e agricultores, corrupção, exploração infantil, salários de pobreza, etc … fabricando um crime contra a humanidade em nome da economia. Acionistas apreciam.

EUA

A América Latina tem o pior vizinho que se pode imaginar: os Estados Unidos. Este país não é um exemplo para ninguém, pelo contrário. Arrogância e supremacia militar são as armas que os Estados Unidos usam para controlar o resto do planeta. No momento, é um país isolado que perdeu todo o respeito por parte da comunidade internacional. Todas as suas últimas guerras foram um fracasso.

O bloqueio de Cuba após 60 anos é puro sadismo, a vingança dos medíocres que não derrotaram uma pequena ilha localizada a 30 km de suas fronteiras.

Eles praticamente se retiraram de todos os tratados internacionais, principalmente as mudanças climáticas em nome da economia e «carvão limpo» (sic).

É por isso que precisamos pensar com muito cuidado sobre o que está acontecendo na Bolívia. Saiba que os Estados Unidos e as forças reacionárias se aproveitaram dos erros do governo para derrubá-lo.

Não há a menor dúvida de que há uma presença e influência dos EUA no golpe na Bolívia, bem como na América Latina como um todo desde a era Trump, quando o intervencionismo voltou em vigor.

Não alimente seu inimigo, porque ele acabará se voltando contra você

Não alimente a Besta, porque ela sempre tentará destruí-lo. É tão astuta que você acreditará firmemente que o inimigo, ou a causa de sua destruição, é uma situação externa, como a conspiração climática internacional contra o capitalismo ou o comunismo que deseja destruir os valores judaico-cristãos ocidentais, cruzada pela família, pátria, propriedade e religião. Quem luta contra o pensamento único impõe totalitarismo em nome de Jesus.

«Quando você enfrentar a Besta, não a alimente, porque a fortalecerá.»

(Gonzalo M. Curto, o inimigo interno)

Os setores progressistas da América Latina, os povos indígenas e todos os setores organizados da sociedade devem refletir sobre o que a América precisa, sobre as demandas reais da população e estabelecer políticas adaptadas a nossa realidade do continente Metis e não se submeta a ideologias que vêm de fora.

A América Latina é um continente onde ocorreu o encontro e o choque de duas civilizações radicalmente diferentes. Os povos originarios e os descendentes de europeus devem estar cientes de que, até hoje, somos um mesmo povo e que devemos lutar juntos por nossos direitos, por dignidade e pelo direito de existir.

Devemos estar cientes de que o respeito deve prevalecer sobre tudo, que o racismo é inaceitável e que, sem a solidariedade de classe, estamos fadados ao fracasso. A elite não pode governar para sempre sem consequências.

Devemos construir nosso próprio caminho, respeitando a diversidade cultural, a idiossincrasia dos povos e as reais necessidades de nosso continente. Essa é a única maneira de impedir que eles continuem nos saqueando e nos matando em nome de riquezas que nos pertencem.

Devemos educar nossos povos para que não sejam influenciados por falsos profetas, falsos milagres ou falsas promessas.

Devemos entender que os Estados Unidos são um país doente, de exclusão e racismo. Sofrendo violência e desigualdade, sofrendo crime. Eles não são um exemplo para ninguém, pelo contrário, eles são os campeões mundiais de serial killers.

«Meus erros foram de ser aborígena, líder sindical e plantador de coca». Não, seu erro foi pensar que era essencial, querer lutar pelo quarto mandato após 14 anos de poder.

Todas as façanhas que a Bolívia e Evo Morales alcançaram nos últimos 14 anos e que colocaram a Bolívia como exemplo foram destruídas pela violência indiscriminada, por um golpe de Estado de extrema-direita e um dos maiores líderes populares da América Latina acabou no exílio.

Ninguém é essencial, o verdadeiro soberano é o povo.

Alfonso Vásquez Unternährer

Traduzido do francês para o português por Miriam Rey Bernardes