Os bêbados e os equilibristas brasileiros choram a morte de Aldir Blanc. ( Foto Fabio Motta)

"Chora nossa pátria mãe gentil/ choram Marias e Clarices no solo do Brasil". Morreu, aos 73 anos, no Rio de Janeiro, no dia 04.05.2020, o compositor Aldir Blanc, vítima de uma infecção generalizada provocada pela COVID-19, diagnosticado em 22 de abril. O óbito foi confirmado pelo Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE), em Vila Isabel, Zona Norte do Rio de Janeiro.

O Brasil perde um grande compositor. O Mestre Sala dos Mares; O Bêbado e a Equilibrista, Rancho da Goiabada; O Ronco da Cuíca; O Cavaleiro; Moinhos a Plataforma, poucos fizeram a ligação com perfeição entre palavras e acordes, poesia e humor, ironias e lamentos, como Aldir Blanc e João Bosco.

Carioca da gema – nascido no Estácio, criado em Vila Isabel e tijucano militante – nunca saiu da boca do povo.  Dor de cotovelo? Quem não chorou com « Dois pra lá, dois pra cá ». Serenata? « Amigo é pra essas coisas » de Aldir e Silvio da Silva Jr. Política?  O bêbado e a equilibrista, hino da revolução contra a ditadura militar, marcou as nossas lembranças de uma época de repressão e sem liberdade de expressão.

O seu acervo cultural é grande, deixou mais de 600 letras. Vai deixar saudade !

Desde os 16 anos ligado com a música. Aprendeu bateria, trouxe dos anos de infância em terreiros de candomblé o ritmo e o compasso de seus versos. A sua obra é enorme, cronista urbano, historiador do Brasil e psiquiatra do povão. No samba Mestre-sala dos mares, celebra a grandeza do negro João Cândido, líder da Revolta da Chibata, que mobilizou marinheiros contra maus-tratos infligidos pela Marinha do Brasil.  Em Resposta ao tempo – parceria com Cristovão Bastos, tema da minissérie Hilda Furacão, porta-voz da alma feminina

Médico de formação, com especialização em psiquiatria, abandonou a profissão para se tornar compositor e se tornar um dos grandes letristas da história da música brasileira.

Em cinco décadas de atividade como compositor, foi autor de mais de 600 canções, com cerca de 50 parceiros, entre eles, João Bosco, Guinga, Moacyr Luz, Cristovão Bastos, Maurício Tapajós e Carlos Lyra. Entre seus trabalhos mais notáveis como compositor estão “Bala com Bala”, “O Mestre-sala dos Mares”, « De Frente pro Crime”, “Kid Cavaquinho”, “Incompatibilidade de Gênios”, “O Ronco da Cuíca”, “Transversal do Tempo”, “Corsário”, “Catavento e Girassol », Coração do Agreste” e por aí vai…

Além de compositor, Blanc foi também cronista, tendo escrito colunas em publicações, como as revistas : O Pasquim e Bundas e os jornais : O Globo, Jornal do Brasil e O Dia. Muitas dessas crônicas foram lançadas mais tarde como livros, como, "Rua dos Artistas e arredores", "Porta de tinturaria" e "Vila Isabel, inventário da infância". Apaixonado pelo Vasco da Gama, escreveu - em parceria com José Reinaldo Marques - o livro "Vasco - a Cruz do Bacalhau".

Boêmio durante quase toda a sua vida, acabou se tornando uma pessoa quase totalmente reclusa em seu apartamento no bairro carioca da Tijuca. Segundo o próprio Aldir, sua reclusão era consequência de uma fobia social desenvolvida em 1991, quando sofreu um acidente.

Algumas obras para recordar da sua carreira incrível que nos fez sonhar :

Discografia

Álbuns de estúdio

‘‘Aldir Blanc e Maurício Tapajós’’, com Maurício Tapajós (1984)

‘‘Vida noturna’’ (2005)

  Coletâneas

 ‘‘Rio, ruas e risos’’, com Maurício Tapajós (1984)

  ‘‘Aldir Blanc e Maurício Tapajós’’, com Maurício Tapajós (1994)

    Tributos

   ‘‘Simples e absurdo’’, de Guinga (1991)

    ‘‘Aldir Blanc - 50 Anos’’, com vários artistas (1996)

    ‘‘Catavento e Girassol’’, de Leila Pinheiro (1996)

    ‘‘Pequeno círculo íntimo’’, de Adriana Capparelli (1999)

    ‘‘Dorina canta sambas de Aldir e ouvir ao vivo’’ (2006)

     Trilha sonora

     ‘‘Era no tempo do Rei’’, com vários artistas (2010)

      Livros

     «Rua dos Artistas e Arredores’’ (Ed. Codecri, 1978)

    ‘‘Porta de tinturaria’’ (1981)

    ‘‘Brasil passado a sujo’’ (Ed. Geração, 1993)

    ‘‘Vila Isabel - Inventário de infância’’ (Ed. Relume-Dumará, 1996)

    ‘‘Um cara bacana na 19ª’’ (Ed. Record, 1996)

    ‘‘Heranças do samba’’, em parceria com Hugo Sukman e Luiz Fernando Vianna (2004)

    ‘‘Rua dos artistas e transversais’’ (2006)

    ‘‘Guimbas’’ (2008)

    ‘‘Vasco - a Cruz do Bacalhau’’, em parceria com José Reinaldo Marques (2009)

    ‘‘Uma caixinha de surpresas’’ (2010)

    ‘‘O gabinete do doutor Blanc — sobre jazz, literatura e outros improvisos’’ (2016)

    ‘‘Direto do balcão’’ (2017).

O povo brasileiro perde um admirável artista, boêmio, compositor que traduziu em canções os sentimentos mais intensos da alma.

Dois pra cá, dois pra lá

Sentindo frio em minh'alma

Te convidei pra dançar

A tua voz me acalmava

São dois pra lá, dois pra cá

Meu coração traiçoeiro

Batia mais que o bongô

Tremia mais que as maracas

Descompassado de amor

Minha cabeça rodando

Rodava mais que os casais

O teu perfume gardênia

E não me pergunte mais

A tua mão no pescoço

As tuas costas macias

Por quanto tempo rondaram

As minhas noites vazias

No dedo um falso brilhante

Brincos iguais ao colar

E a ponta de um torturante

Band-aid no calcanhar

Eu hoje me embriagando

De whisky com guaraná

Ouvi tua voz sussurrando

São dois pra lá, dois pra cá.

Dejaste abandonada la ilusión

Que había en mi corazón por ti.

Maravilha !

Aplausos poeta, psiquiatra do povo.

Aldir você nunca morrerá nos corações dos brasileiros, as suas músicas serão eternas !

 

Por Miriam Rey

 

 

 

 

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