“Quando alguém invoca tais conteúdos, a qualidade do debate reduz amplamente”, analisa pesquisador

Parceria Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com redes sociais visa combater a disseminação de notícias falsas durante o pleito de 2020

Faltando um mês para o primeiro turno das eleições municipais, reacende-se a importância de um tema que tem sido vital no debate público: como combater as fake news? Algumas medidas foram tomadas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que anunciou no último dia 30 uma parceria com as redes sociais Facebook, Instagram e WhatsApp para combater a disseminação de notícias falsas durante o pleito este ano.

Entre os serviços disponíveis, segundo o site do Senado Federal, está um canal para denunciar contas suspeitas de fazer disparos em massa de mensagens pelo WhatsApp. A denúncia pode ser feita pelo WhatsApp da justiça eleitoral (61 96371078). No Facebook, uma nova ferramenta chamada Megafone coloca no topo das páginas notícias sobre as eleições. Mas afinal, o que exatamente são fake news (e o que não são) e por que este fenômeno se tornou tão central em especial em períodos como este?

O jornalista Frederico Oliveira, doutorando em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), pesquisa o tema junto ao Laboratório de Pesquisa em Mídia Digital, Redes e Espaço (LAB404). Ele explica: “Fake news são mensagens maliciosas que, embora pareçam verdadeiras, são produzidas intencionalmente com o objetivo de influenciar pessoas ou grupos com objetivos específicos, principalmente políticos. Busca-se ampliar ao máximo a distribuição desses conteúdos, a fim de atingir o maior número de pessoas”.

Vale dizer que, por seu teor intencional, as fake news não se confundem com boatos que surgem espontaneamente e nem com erros jornalísticos.

Frederico Oliveira alerta que projetos políticos nefastos podem ser eleitos em função da polarização e do pânico gerado pelas fake news. / LAB404

Frederico conta que, quando o conceito de fake news surgiu, ele se restringia “a textos que simulavam a escrita e a aparência de conteúdos noticiosos – sites que simulavam portais jornalísticos, por exemplo”. Mas hoje, afirma, “para entender as fake news no Brasil – e, também, como elas são percebidas no imaginário popular – temos de levar em conta todos os conteúdos que enganam e são amplamente distribuídos nas redes digitais. Isso vai de um sticker no WhatsApp às deep fakes (vídeos manipulados)”. As fake news podem envolver dados falsos ou a manipulação e descontextualização de dados verdadeiros, tendo um grande alcance.

Cultura digital

Embora informações e notícias falsas circulem desde sempre, vivemos em um contexto que se tornou propício a sua disseminação. Frederico afirma: “Há de se considerar que, embora a desinformação – e a propaganda – como tática política exista há muito, sua distribuição era limitada pelos meios de comunicação disponíveis”.

O acesso ao jornal impresso, cita, sempre foi restrito a grupos letrados e de camadas mais abastadas da população. “Não se pode comparar isso à lógica de distribuição de conteúdos promovida pelas plataformas de redes sociais”, pontua.

As fake news são, assim, “uma nova forma de desinformação, específica da cultura digital”, diz. São também subprodutos dos modelos de negócio das grandes plataformas digitais, que disputam a atenção e permanência do usuário em suas redes. Frederico menciona uma pesquisa recente dos professores André Lemos e Elias Bittencourt, também do LAB404, que demonstrou que o algoritmo do YouTube, por exemplo, prioriza conteúdos de baixa qualidade informativa: “É mais fácil que um conteúdo falso viralize que uma notícia. Há outras pesquisas que também apontam que essas plataformas priorizam conteúdos falsos. As fake news são um problema central porque as plataformas são um espaço central da cultura digital na atualidade e nelas estamos amplamente imersos”, analisa.

O WhatsApp tornou-se, no Brasil, uma das plataformas mais utilizadas na propagação de fake news. Textos, áudios e vídeos podem ser produzidos e compartilhados facilmente por qualquer pessoa, e entre contatos, pessoas próximas em quem em geral se confia.

Outra questão importante apontada pelo pesquisador, é que “quando enviamos uma imagem pelo WhatsApp o aplicativo apaga os metadados de autoria – ou seja, não é possível ver quem postou aquele conteúdo pela primeira vez –, o que facilita o anonimato”. Reputações podem ser destruídas e decisões públicas podem ser manipuladas sem que sequer se possa encontrar os responsáveis.

Arma política

A atenção às fake news se amplia no período eleitoral, porque elas podem influenciar de forma crucial o debate público, induzindo eleitores a erro. Ademais, estudiosos apontam para a ação de governos populistas conservadores e autoritários, como é o caso do governo Trump nos EUA e Bolsonaro no Brasil, que têm trabalhado com a criação, apoio e viralização de fake news como arma política. Combater a divulgação de notícias falsas torna-se fundamental nestas democracias.

Mas elas não afetam apenas decisões ligadas ao voto. Frederico ressalta: “O mais recente exemplo de como um conteúdo falso pode afetar nossas vidas diretamente é a medição de temperatura na porta dos estabelecimentos, nesse contexto de pandemia.

Nos últimos dois meses, pouco a pouco, a aferição deixou de ser feita com o laser sendo apontado na testa e a leitura passou a ser feita no pulso. Por quê? Um conteúdo falso que circulou no WhatsApp indicava que a prática anterior causava danos à saúde. Pode parecer uma simples troca, mas a precisão é reduzida quando tiramos a temperatura no pulso”.

Em um contexto eleitoral, compara, a situação é muito grave: “Porque não apenas biografias podem ser manchadas, mas projetos políticos nefastos podem ser eleitos em função da polarização e do pânico gerado pelas fake news. Algumas delas, como o kit gay, já têm dez anos de existência e continuam sendo ressuscitadas em cada período eleitoral”. E completa: “Quando alguém invoca tais conteúdos, a qualidade do debate reduz amplamente, e não temos condições de discutir a cidade e aquilo que para ela desejamos”.

Frederico aponta que já existem manuais que indicam como identificar que um conteúdo pode ser falso. Entre os elementos estão “o uso de linguagem denuncista, caixa alta, apelos por ação, apelo por compartilhamento, e ausência de identificação de fonte”, cita. Por outro lado, nem toda informação pode ser checada, por representar opinião, ou, como exemplifica o pesquisador, por serem informações sem referencial: quando se diz, por exemplo, que “a violência aumentou”, mas não se diz onde, nem em relação a que período.

Na dúvida, não compartilhe…

Em pesquisa desenvolvida por Frederico com o professor André Lemos, os participantes acreditavam-se menos suscetíveis de serem enganados por conteúdos falsos do que outras pessoas de quem são distantes socialmente. “E, embora eles se digam capazes de identificar conteúdos falsos, não afirmaram que reagem/corrigem outra pessoa quando essa posta mensagens falsas no WhatsApp”, relata. Ele considera: “Há indícios que o que acontece é que os participantes não acreditam que as pessoas compartilham fake news propositalmente mas, sim, que são vítimas desses conteúdos. Assim, preferem não reagir”.

É possível e importante adquirir hábitos para checar e avaliar conteúdos de modo a reduzir os efeitos danosos das fake news. “É preciso, antes de tudo, entender como funcionam as fontes de informação que usamos, a fim de avaliar a qualidade da informação que ali acessamos”, ensina o pesquisador.

“Um jornal impresso ou outro espaço de jornalismo profissional, ainda que possa incorrer em erro, tende a ter uma informação credível e adequada. O mesmo não acontece no WhatsApp, espaço em que todos podem postar, em que o texto compartilhado é, geralmente, curto – tirando a possibilidade de maior aprofundamento.”

Como prática, orienta: “Talvez a melhor estratégia para identificar conteúdos falsos e evitá-los, é, então, acessar o maior número possível de informações em fontes socialmente validadas – jornais de prestígio, portais noticiosos, pesquisa científica, dentre outros. Isso, contudo, não significa que não seremos expostos a esses conteúdos falsos”, conclui.

Danielle da Gama

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