Estive pensando sobre a corrupção, suborno, propina, extorsão e enriquecimento ilícito, e amigos leitores, a verdade me entristece e toca fundo nos valores essenciais do compartilhar dentro do respeito e honestidade perante o trabalho do outro.

Mas infelizmente a corrupção não tem data de nascimento e nem nacionalidade, ela anda de mãos dadas com a história da civilização humana.

Nas notícias recentes e fresquinhas do nosso país roxo de vergonha, encontrei inspiração para pesquisar de uma maneira sociocultural, a tal corrupção.

Resolvi fazer uma viagem nos livros e imaginar o porquê da dita-maldita corrupção fazer parte ancestral da estrada dos homens.

Se voltarmos no tempo e visualizarmos o antigo império romano, veríamos que de exemplos de corrupção, ele está recheado, exemplos que nos mostram que tal crime era praticado não somente pelo governo e que a própria população se adaptava a essa realidade corrupta que acompanhou o nascer, o apogeu e o declínio do grande império.

E a pergunta que me cutuca o cérebro é: o que leva as pessoas a se corromperem? As respostas podem ser muitas, mas a causa intrínseca e profunda é simplesmente o amor pelo dinheiro e pela vida fácil, a verdade é que estão atreladas e andam lado a lado, há milênios, ao comportamento deturpado da ganância da humanidade.

Na Grécia antiga tínhamos a divisão setorial e hierárquica na administração pública, mais ou menos, dentro da mesma concepção dos tempos atuais. Roma « modernizou » tal prática e pretendeu manter o serviço público eficiente visando à capacidade de atender a demanda social-administrativa do governo.

Alguns imperadores romanos tentaram combater a corrupção, foi nesta época que surgiram os livros contábeis e a obrigação dos governos de prestar contas de suas receitas e gastos, na velha Roma surgiram também, os diários oficiais com o objetivo de controlar os gastos e as atitudes tirânicas dos governadores, o que se constatou no vasto império romano foi o crescente número de casos de corrupção, cujos personagens iam do mais baixo ao mais alto escalão.

É, pois é a velha corrupção esteve presente em todos os tempos. Os militares romanos a quem cabia o dever de prender criminosos, encabeçavam a lista dos corruptos ao lado da elite imperial. Os camponeses deviam pagar certa quantia continuamente, uma espécie de gratificação institucional.

Estes mesmos militares exigiam uma espécie de dízimo de tudo que era produzido no campo, levando para celeiros públicos, parte da colheita.

O corporativismo entre os próprios militares era algo notório, para desfrutar de folgas ou repouso, os subordinados deveriam comprar tal direito, oferendo propina ao chefe.

Em tempos de paz, a corrupção rolava solta no exército romano, havia uma considerável baixa no quadro dos efetivos nos diversos regimentos, pois, em vez de estar em serviço no horário de trabalho, o soldado dava uma « fugidinha » a fim de praticar atos alheios a sua tarefa militar, entre elas, a prática de roubos.

O ciclo vicioso tomou conta da sociedade romana que acabou tornando-se um modismo, algo natural, algo esperado para aqueles que necessitavam do serviço público. O funcionário romano para praticar um simples ato institucional, exigia de quem estivesse precisando dinheiro em troca, inclusive havia uma tabela de preços aos atos sujeitos a corrupção.

Os governadores das províncias ofereciam vultosas somas aos inspetores imperiais.

A realidade da corrupção ganhou espaço na literatura, os poetas eróticos revelavam em seus escritos o esperado desejo feminino de contemplar seu marido deixar o lar por determinado tempo para enriquecer em outra província.

Cicero, esse mesmo, o famoso romano dotado da erudição, depois de um ano como governador de província, voltou milionário para casa, se tornou senador pelo sua enorme capacidade oratória, como na era moderna, saqueou os cofres público motivado por razões alheias a ética constitucional e social.

O enriquecimento ilícito tem séculos de carreira, maneira fácil e rápida de ganhar a vida. A propina ou suborno é uma técnica desonesta que consiste em pagar uma autoridade pública ou privada em troca de favores ou da omissão ética dos seus deveres profissionais. Ainda para completar a cena repudiante, temos a exortação que age através da ameaça ou violência para obtenção de vantagens ou recompensas em dinheiro.

E todo esse papo me fez esquecer os romanos e focalizar meu pensamento no meu país de origem, o nosso país que dizem ser uma grande potência, será? A corrupção no Brasil vem de longa data, para entendermos é mais do que preciso retornar na história e na formação da nação brasileira.

Basta considerar a proclamação da república em 1822, quando uma das maneiras mais intensificadas de corrupção era a eleitoral, ligada a obtenção de contratos junto ao governo para execução de obras públicas ou concessões, em 2015 nada mudou…

Segunda a professora Rita Bieson, o Visconde de Mauá recebeu licença para a exploração de um cabo submarino e a transferiu para uma companhia inglesa e passou a ser o seu diretor, ou ainda, outro empresário brasileiro da época, que recebeu 120 mil libras, pela concessão da iluminação a gás da cidade do Rio de Janeiro, após transferi-la para uma Cia. inglesa.

A corrupção é uma herança antiga que já existia na época da colônia, isto porque havia a necessidade de seduzir o agente do rei ou o próprio rei, outra causa era a dificuldade de convencer os fidalgos portugueses a virem para o Brasil, que era considerado o «quinto dos infernos », sem lhes oferecer vantagens.

A coroa era permissiva, deixava que trabalhassem sem vigilância, senão ninguém viria para a colônia do outro lado do mundo, esse foi um dos fatores determinantes da corrupção na época de reis, rainhas e da elite da época.

E hoje o filme se repete, outros nomes, outras manobras, da colônia ao Brasil Imperial a República dos coronéis, do voto do cabresto, que foi a marca registrada neste período, e deste para a República redemocratizada. O que mudou no Plano Collor, no Mensalão, no Petrolão, na Operação Lava-Jato, na operação Ave-de-Rapina ? O que mudou foram os métodos ou os meios, o volume de dinheiro e de negócios. Tudo como antes no quartel de Arantes…

Destaco a pouca atenção dada a um modelo de educação, de formação do povo pelas vias acadêmicas, uma espécie de ajuste intencional entre a miséria material e a miséria cultural.

« A corrupção dos governantes sempre começa pela corrupção dos seus princípios »
Montesquieu

Por Miriam Rey