Ultimamente, fala-se muito da crise democrática ou da crise da democracia. Mas se observarmos mais profundamente, veremos que não é a democracia (sistema político de representação popular) que está em questão, mas sim a manipulação do sistema democrático por vários grupos de interesse, principalmente os de direita.

Para estes grupos liberais, governar significa criar condições favoráveis para o crescimento exponencial do capital. Esses setores não governam, buscando a distribuição da riqueza no país ou tentando satisfazer as demandas populares. Os partidos que defendem o liberalismo governam para os setores econômicos e financeiros que hoje monopolizam o discurso político.

A teoria de menos Estado possível significa privatizar todos os serviços do Estado, como a educação. A educação é um dos direitos dos cidadãos e , quando estes são privatizados, marginalizam uma grande parte da sociedade. A falta de meios financeiros para custear a educação, significa que as famílias desses alunos devem pedir emprestado dinheiro aos bancos, e depois, estes mesmos alunos devem passar uma grande parte de suas vidas pagando essa dívida.

Na política neoliberal, tudo deve estar nas mãos do setor privado. Estado de coisas aprofundadas por tratados internacionais, como o TTIP e outros que exigem que os países abram as suas economias ao setor privado, penalizando qualquer atitude protecionista que os governos possam ter através de tribunais privados que poderiam condenar os estados nacionais em disputas com empresas multinacionais.

Quando as nações escolhem governos progressistas com o objetivo de colocar direitos e necessidades dos cidadãos no centro do debate político, os setores da direita liberal gritam enraivecidos que são ditaduras  comunistas,castristas, pior, chavistas, e colocam todas as suas energias e forças nacionais e internacionais, para sabotar o processo político, como ocorreu recentemente no Brasil, ou ainda o que se passa atualmente na Venezuela, ou o que aconteceu no Paraguai com o golpe de Estado contra Fernando Lugo, ou as tentativas desesperadas na Bolívia para desestabilizar o processo político iniciado por Evo Morales.

Podemos ver que, apesar das sucessivas crises por causa da corrupção no setor bancário e financeiro mundial, a situação permanece a mesma. Os bancos continuam com suas práticas criminosas, como podemos constatar todos os dias no que resta da imprensa livre e de investigação.

Na Suíça, o Credit Suisse e a UBS ( União de Bancos Suiços) apesar dos milhões de multas, ainda continuam envolvidos com atividades obscuras e ilegais e com toda a impunidade! Até agora, nenhum presidente destes bancos foi preso ou incomodado, apesar da gravidade dos crimes.

O Liberalismo econômico gangrenou as democracias, usando- as em seus próprios interesses, usando o discurso do medo, o da chantagem e mentiras para criar um clima de insegurança podendo assim desestabilizar o país e levar as pessoas, a votar em seus partidos, fazendo com que o suicídio popular seja uma realidade. Isto explica como é possível que na Espanha, setores da população continuam a favor de uma organização criminosa, como o Partido Popular (PP) de Mariano Rajoy, que continua no governo através de um mentiroso e hipócrita discurso , se dizendo como o único garante da paz e a estabilidade social, no entanto, eles são os principais responsáveis pela corrupção, miséria e tristeza do povo espanhol.

Nós temos na Suíça, o exemplo de um  partido execrável, mentiroso, hipócrita e xenófobo. Sua principal preocupação não é o bem-estar da maioria, mas sim de impor, por qualquer meio, o seu ponto de vista. Partido que nunca concorda com nada e é sempre contra tudo! Essas táticas políticas podem trazer os seus frutos por um tempo, mas agora vemos que o cidadão suíço começou a se cansar do mesmo discurso que não apresenta soluções e cria um ambiente repugnante onde os estrangeiros são criminalizados e acusado de todos os males que afligem o país.

Um país onde a economia é maior do que a demografia e que para continuar a crescer depende da contribuição de mão de obra estrangeira.

Partido que, apesar de ter obtido 29% dos votos, não é representado em qualquer executivo cantonal e seu líder Christoph Blocher, após um mandato de quatro anos foi expulso do Conselho Federal, em um país onde os ministros ocupam suas posições, pelo menos dez anos.

Autoritário, arrogante, o exemplo da extrema direita, ele se considerada como o único representante dos valores nacionais e se comporta como se fosse o dono do país. Mas, na realidade, o comportamento da UDC (União Democrática do Centro) está em total contradição com os verdadeiros valores suíços de honestidade, discrição, modéstia, diálogo e consenso. Seus líderes vivem permanentemente em estado de emergência, como se o país estivesse experimentando um apocalipse, como se a Suíça estivesse à beira do abismo, e deva, a todo custo, ser salva das mãos dos invasores estrangeiros. Eles se consideram fora do sistema, mas o seu presidente, Blocher,  é um bilionário que depende do sistema que ele combate.

A UDC perdeu vários líderes na Suíça francesa ( A Suíça tem três regiões linguísticas principais, a Suíça alemanica, que fala alemão, o Ticcino que fala Italiano e a Suíça Romanda que fala francês), por causa de sua provocação constante, a agressividade e violência em seus discursos e uma aproximação crescente com os movimentos de extrema direita e neonazis Europeus, principalmente na figura de Oscar Freysinger do cantão do Valais, que sofreu uma derrota sangrenta nas recentes eleições locais, que o obrigou a retirar-se da vida política.

Na Suíça, através da democracia direta e o conceito do povo soberano, que é levado muito a sério aqui, é quase impossível confiscar a democracia como aconteceu no Brasil, Paraguai e Argentina, onde o poder foi arrebatado pela oligarquia e grupos criminosos através de um golpe de Estado «parlamentar”, no caso do Brasil e do Paraguai, ou através da manipulação ideológica dos cidadãos como na Argentina, onde Mauricio Macri e as teorias ultraliberais estão levando o país ao caos.

A única forma de democracia valida é aquela que se esforça  de recuperar o seu objetivo original que é a de representar as aspirações do povo, organizar a distribuição da riqueza no país e implementar políticas que deem aceso aos direitos fundamentais que são a saúde, à educação, habitação, alimentação e emprego para a população. Instaurar um sistema de controle através das associações populares de base, instancias que favoreçam a soberania popular, uma legislação de controle rigoroso dos partidos e seu financiamento no caso das democracias partidária, uma imprensa livre e forte para permitir o debate, um mecanismo que impeça qualquer desenvolvimento do discurso totalitário.

O Estado deve ser laico e progressista, com o único propósito de proteger o bem-estar dos cidadãos. Progressista no sentido de que o homem, o cidadão deve estar no centro absoluto das decisões e deve proteger os direitos fundamentais da sociedade, tais como o acesso à educação, saúde, transporte, segurança. Estes não são produtos comerciais, mas sim direitos dos cidadãos não sometidos o lucro que não podem ser entregues ao mercado, onde ninguém ganha e todos perdem.

Estabelecer, como na Suíça, uma política de milícia. Política não é uma profissão, é um serviço público e qualquer um que assuma uma função política, deve ter consciência de que não é uma autoridade, mas um funcionário ao serviço da nação.

Devemos encorajar o diálogo e a construção do consenso. Neste sentido, o sistema suíço tem muito a ensinar, onde não há presidente, mas um Conselho Federal composto pelos principais partidos que formam o executivo nacional. Todas as principais correntes ideológicas estão no comando do país forçando-os a se falar e procurar soluções consensuais. A presidência é ocupada por um membro do Conselho Federal por um período de um ano, se revessando anualmente.

O Liberalismo econômico tem colocado o mundo dos negócios e das finanças no centro, tornando os cidadãos, meras engrenagens no serviço do sistema que só beneficia uma minoria estrita e sem qualquer ética ou moral, que explora a sociedade em proveito próprio, sem qualquer escrúpulo pelo sofrimento social que possa causar ao resto da comunidade. O único objetivo é otimizar ao máximo os lucros, independentemente das consequências. A obsessão com dinheiro e o poder, que minam o sistema democrático, são responsáveis de desastres como a profunda crise da União Europeia que em vez de se tornar uma União dos povos europeus, tornou-se a União de Bancos e bolsas, da especulação e corrupção.

Nosso objetivo aqui não é combater o comércio ou as atividades econômicas das empresas, mas  contestar a forma como elas agem.

Há empresas que procuram explorar minerais subterrâneos e escondidos. Mas de que forma?

Que os homens precisam produzir bens de consumo é indiscutível, no entanto, métodos questionáveis utilizados por essas empresas; dumping salarial, trabalho clandestino, exploração do trabalho infantil, assassinato de sindicalistas e defensores da natureza, trabalho escravo, são questionáveis. Tudo isso é necessário para enriquecer os acionistas?

É necessário derramar tanto sangue para que uma senhora da «Sociedade» mostre enormes diamantes pendurados em suas orelhas?

É necessário destruir o meio ambiente e os milhares de recursos para extrair o petróleo, sem considerar os danos colaterais?

E esta profunda maldade e crueldade que as empresas utilizam para minar a democracia. Esses criminosos têm um discurso afiado, se colocam como salvadores dos valores da sociedade ocidental, quando, no final, os únicos valores que defendem são os que protegem os seus próprios interesses.

As classes médias ao redor do mundo enfrentam um dilema, aparentemente intratável; votar em aqueles que são seus próprios carrascos e suas políticas, que destroem economias e esperanças para seu próprio benefício, traindo todos aqueles que fizeram-lhe confiança, gritando que o sistema liberal é o único que protege a liberdade. Qual liberdade? A dos grupos oligárquicos e daqueles que dominam a economia e as finanças globais continuarem a sugar o sangue do planeta e provocando guerras para seus próprios interesses.

Hoje, a questão é: quantos milhares de mortes são necessárias para enriquecer um acionista?

A partir deste mês, o Hebdolatino abre um debate sobre o sistema democrático, seus derivados e suas soluções.

Para aqueles que querem participar deste debate, envie sua opinião para redaction@hebdolatino.ch, e depois de ser analisado e aprovado pela equipe do editorial, será publicado em nosso site.