É uma paixão moralizante que atualmente está dominando, o que sempre me surpreenderá. Todo mundo julga, quase nunca falamos de algo para examiná-lo, considerá-lo, compreendê-lo, pensá-lo, acima de tudo, avaliá-lo, exaltá-lo e condená-lo, e quase sempre de maneira sumária. 

Acredito, ou pelo menos estou convencido, que a realidade humana é moral – moral ou imoral – totalmente moral e inerentemente imoral. Às vezes tenho a sensação de que estamos sendo encorajados, estamos sendo levados a lutar em campos de batalha errados, enquanto outros estão desenvolvendo suas estratégias, táticas e ofensivas em novos campos de batalhas tecnológicas. É certo que o mundo está mudando, sim, mas no tema da comunicação, continua a estar nas mãos de um poder oligopolista; 1.500 jornais, 1.100 revistas, 9.000 estações de rádio, 1.500 canais de televisão, 2.400 edições, são controlados por seis empresas de comunicações transnacionais.

Em meio a essa realidade, estabelecida quase que inalteravelmente, surge um novo fenômeno de comunicação e informação, as redes sociais. As redes sociais são um meio de comunicação direta entre os protagonistas e aqueles que os seguem. Quando não há câmera ou microfone, os políticos usam suas redes sociais para expressar sua posição sobre o tema do momento. Mas no que diz respeito à comunicação popular, as redes sociais não alcançaram seu objetivo de massificar as mensagens e muito menos de democratizar as informações e a comunicação. Torna-se difícil desenvolver seu próprio programa, uma linha editorial compartilhada, não se sabe qual crítica de massa aborda as mensagens. Não se trata de falar de uma vanguarda esclarecida que diz aos outros o que fazer, mas de coletar as preocupações que os comunicadores – profissionais, populares – levantam de diferentes fóruns. Há muito voluntarismo e falta de profissionalismo, como foi expresso em uma das sessões do Fórum de Comunicação para a Integração.

Sempre foi muito difícil estar bem informado. E hoje é ainda pior, porque as redes adicionam mais confusão e mais barulho, o que nos impõe uma versão dominante, que permanece nas mãos da mídia hegemônica.

O problema torna-se mais agudo porque jornalistas ou jornalismo perderam o monopólio da informação, já que qualquer cidadão pode produzir sua própria informação.

A mídia gráfica – a imprensa – não é financiada e é cada vez menos lida.

Dia após dia, durante as 24 horas, um exército invisível de «capitalismo de vigilância» ataca nossas cabeças, não usa tanques, aviões ou submarinos, mas informações dirigidas e manipuladas por imagens e grandes títulos.

Hoje, o ritmo normal de informação não é mais em 24 horas, é a instantaneidade. O O jornalista foi o analista de um jornal, mas hoje, o jornal é o momento: a mensagem é dirigida às emoções do cidadão, não ao seu raciocínio, não há tempo nem lugar para a análise.

Neste quadro, surgem todos os cenários propícios à desinformação. Vamos apresentar alguns exemplos:

No início de 2017, a CIA, o FBI e a National Security Agency publicaram um relatório público resumindo suas descobertas sobre como o governo de Wladimir Poutine ordenou e implementou uma campanha que incluiu a disseminação de notícias falsas, hackeando e filtrando e-mails, tanto da campanha de Hillary Clinton quanto do Comitê Nacional Democrata, tudo para beneficiar a campanha de Donald Trump. Mas enquanto acusava a Rússia, Washington não comentou o fato de que tentou influenciar as eleições russas em 1996 em favor de Boris Yeltsin, que apoiou Vaclav Havel na Tchecoslováquia desaparecida, além de outros países entre 1946 e 2000.

No entanto, em meio a essas cruzadas, surgiu um novo protagonista, o Facebook, que reconheceu seu impacto real nesse episódio. Segundo o Facebook, dados de até 87 milhões de usuários em todo o mundo foram afetados, entre eles, 70 milhões de americanos. A Cambridge Analytica, por sua vez, afirma ter recebido informações sobre 30 milhões de usuários. O Facebook estava ciente da transmissão de dados desde o final de 2015, mas estava satisfeito com as garantias de que eles haviam sido destruídos e não informaram os usuários.

O grupo, com 2.000 milhões de usuários, também foi criticado por muitos meses, por ter servido – como Google ou Twitter – como uma ferramenta de desinformação e manipulação política, a fim de promover Trump durante a última eleição presidencial dos EUA. .

Nesse arcabouço de desinformação organizada, verdades digitais e mentiras reais, o impacto de estabelecer um conceito legítimo de verdade legítima se mostra difícil. Vemos isso no caso de Lula no Brasil, quando o poder judiciáriol pronuncia uma condenação preestabelecida, desinformada e condenada nas redes sociais, ou no caso da Catalunha na Espanha, onde os problemas políticos são resolvidos na justiça, tudo isso com o apoio das redes sociais que destilam o ódio e o chauvinismo mais rançoso do fascismo.

Hoje, a preocupação com o poder dos EUA sobre as telecomunicações globais está crescendo dia a dia, não apenas porque a Internet é gerenciada pela empresa da ICANN em todos os países e, portanto, está sujeita às leis dos EUA, mas também pela confissão que obteve de servidores como Microsoft, Apple, AOL, YouTube, Google, Facebook, Skype, etc. que eles cederam ao seu pedido – ou à sua pressão – para intervir nas contas de clientes particulares, os cidadãos.

Chegamos em um momento em que as novas tecnologias são tão complexas e eficientes que podemos obter a manipulação dos exercícios.

Não devemos esquecer que a saúde de uma democracia depende, em grande medida, da qualidade da educação cívica daqueles que participam nos processos eleitorais. Apesar dos grandes esforços, nosso sistema político não conseguiu incorporar as novas gerações no processo de tomada de decisão, do qual se sentem distantes e alheios.

Isso, porque um discurso radical se aprofundou nas mídias sociais, suprimindo em muitas ocasiões a oportunidade de conduzir debates informados dentro da estrutura de respeito e tolerância que alimentam uma ampla cultura de direitos humanos. . Em vez de encontrar uma nova maneira de expressar ideias e críticas fundamentadas no ciberespaço, o discurso de ódio ganha espaço para uma visão de sancionar opiniões diferentes. Esse caminho está errado. De qualquer forma, isso apenas nos leva à desqualificação e desprezo dos outros, entre condenação e linchamento expedito.

Por Eduardo Camin

editor chefe internacional de Hebdolatino

Tradução do francês para o português por Miriam Rey