Créditos da foto: ‘Não à ditadura’: milhares de brasileiros se manifestam contra o Bolsonaro (Reprodução/Guardian)

Dezenas de milhares de manifestantes foram às ruas das maiores cidades do Brasil para exigir o impeachment do presidente Jair Bolsonaro pela condução catastrófica da pandemia de coronavírus que, até agora, ceifou quase meio milhão de vidas de brasileiros.

Os manifestantes compareceram a manifestações em mais de 200 cidades e vilas para a maior mobilização anti-Bolsonaro desde o início do surto de Covid no Brasil.

“Hoje é um marco decisivo na batalha para derrotar a administração genocida de Bolsonaro”, disse Sílvia de Mendonça, 55, uma ativista de direitos civis do Movimento Negro Unificado do Brasil, enquanto liderava uma coluna de manifestantes pelo dilapidado centro da cidade do Rio.

Osvaldo Bazani da Silva, um cabeleireiro de 48 anos que perdeu o irmão mais novo para a Covid-19, disse: “Não podemos perder mais vidas de brasileiros. Precisamos ir às ruas todos os dias até que este governo caia.”

No Rio, muitos manifestantes carregavam cartazes caseiros lembrando seus entes queridos que perderam em uma epidemia que matou quase 460.000 brasileiros, o segundo maior número oficial de mortos depois dos Estados Unidos. “Estou aqui em sua memória”, disse Luiz Dantas, 18, segurando uma fotografia do avô, Sebastião, falecido em fevereiro aos 75 anos.

“O culpado tem um primeiro e um segundo nome”, afirmou Dantas, referindo-se ao presidente de extrema direita de seu país, que repetidamente banalizou o coronavírus como uma “pequena gripe” e sabotou esforços de contenção, como distanciamento social ou bloqueio.

“Eu quero justiça”, acrescentou o adolescente, derramando lágrimas enquanto falava.

Irene Grether, uma psicanalista de 69 anos que também estava na manifestação, disse que dois parentes seus morreram como resultado da inação de seu governo. “Este governo é mais perigoso do que o vírus”, disse ela, enquanto milhares de manifestantes se reuniam perto de uma estátua em memória do líder da resistência antiescravista Zumbi dos Palmares.

A sobrinha de Grether, uma economista de 46 anos chamada Ana Paula Carvalho, disse acreditar que Bolsonaro deveria ser levado ao tribunal penal internacional de Haia “por crimes contra o povo brasileiro”. “Ele promove a morte e a destruição”, disse ela. “Bolsonaro é uma tragédia brasileira.”

Bolsonaro defendeu sua resposta à pandemia, alegando que sua oposição obstinada ao bloqueio é destinada a garantir a subsistência e os empregos brasileiros. Mas Carvalho disse que ao permitir a propagação descontrolada do vírus – e ao não adquirir vacinas suficientes – Bolsonaro destruiu a economia, assim como vidas. “Hoje o povo brasileiro tem uma escolha entre morrer de vírus ou de fome”, disse ela.

As manifestações de sábado – que também ocorreram nas principais cidades, incluindo São Paulo, Belo Horizonte, Recife e na capital Brasília, bem como em dezenas de cidades menores – acontecem no momento em que Bolsonaro enfrenta sua pior fase desde que assumiu o cargo em janeiro de 2019.

As pesquisas sugerem uma raiva crescente com a maneira como o populista de direita está lidando com a pandemia, com 57% da população agora apoiando seu impeachment. Uma comissão de inquérito do Congresso está atualmente dissecando a calamitosa resposta de Bolsonaro à crise de saúde pública, com revelações prejudiciais sobre a conduta de seu governo sendo transmitidas todas as noites no noticiário.

Bolsonaro parece particularmente abalado com o ressurgimento de seu rival político Luiz Inácio Lula da Silva, o ex-presidente esquerdista que parece prestes a desafiá-lo na corrida à presidência na eleição do próximo ano. Em entrevista recente ao Guardian, Lula, cujos direitos políticos foram recentemente restaurados, disse não ter dúvidas de que o povo brasileiro se “libertaria” de Bolsonaro em 2022. “Ele poderia ter evitado metade dessas mortes”, disse Lula sobre a reação de Bolsonaro à Covid.

Roberto Anderson, professor universitário e ambientalista de 67 anos que estava na marcha de sábado, disse que se sentiu encorajado pela grande participação que sugeria que a maré finalmente estava se voltando contra o líder de direita radical do Brasil.

“As pessoas estão acordando. Muitas pessoas que votaram em Bolsonaro estão vacilando … e os políticos que ainda o apoiam são oportunistas – no momento em que virem as pessoas se organizando, também mudarão de lado ”, afirmou Anderson.

*Publicado originalmente por The Guardian | Traduzido por César Locatelli

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