Vivemos em um mundo onde a questão não é mais saber se haverá ou não um atentado, mas quando haverá. Aguardando, assistimos petrificados, a uma enchente de palavras que, na maioria, são de uma estupidez aturdem-te. As únicas palavras que contam para mim, neste momento doloroso, são as palavras liberadoras dos sobreviventes ou dos parentes, dos próximos das numerosas, tão numerosas, numerosas demais, vítimas. E nessa torrente verbal, esses anátemas, essas explicações, essas certezas, essas imprecações, paradoxalmente, são as únicas palavras que sejam dignas, sem violência, sem espírito de vingança. E paradoxalmente ainda, são as únicas palavras que não se ouvem. Oh, certamente ouvimos sem parar da televisão em edição especial, mas como uma notícia e um pedido nauseabundo com questões vulgares, indecentes, voyeuristas.

Também, na correnteza das redes sociais, onde há de tudo, pois cada um tem sua opinião a dar, seu tempero mais ou menos apetitoso, sua teoria, às vezes interessante, quase sempre inútil, um grande delírio verbal, uma saída nacional, até internacional, escrita com boa ou má fé. Como se diz na França há tantos técnicos de futebol quantos espectadores, pode-se observar que há também tantos especialistas em atentados e suas causas. E ainda existem duas ou três grandes tendências que emergem.

A causa seria um Islã puro e duro, a radicalização de certos muçulmanos, uma leitura do primeiro significado dos textos do profeta, um retorno às origens, uma aplicação estrita da chária, uma obediência cega a certas recomendações do Corão, como a de matar todos os infiéis, o todo se beneficiando de certa complacência da Umma, e até mesmo uma grande cumplicidade. É a teoria de uma grande parte da população europeia que se baseia especialmente no silêncio dos muçulmanos integrados ou não. No entanto, se vê que as maiores autoridades muçulmanas condenam violentamente esse radicalismo e o terrorismo decorrente.

A causa seria devido à política americana, à destruição do Iraque, à política europeia, à destruição da Líbia, ao apoio incondicional à Arábia Saudita, inimigo jurado do ditador sírio, Bachar al-Assad. Duas coisas, a primeira: não houve nenhuma intervenção na Síria. No começo da revolta do povo, Assad bombardeou e matou centenas de milhares de pessoas. Ele sozinho.

A segunda, eu não contesto que a intervenção americana e europeia fez mais mal do que bem, que mais desestabilizou do que construiu. Não me esqueço de que o Iraque era um país laico, como a Síria, um pouco menos que a Líbia. E, sobretudo eu não me esqueço de algo que poucas pessoas falam: a única primavera árabe que funciona, a Tunísia, único país que resolveu seu problema sozinho. A « ingenuidade » dos dirigentes ocidentais que pensavam que eliminando os ditadores geraria estados democráticos espontâneos poderia ser comovente, mas…

A causa poderia ser a má integração dos jovens das periferias, a pane do elevador social, a discriminação racial, ter o nome Mohamed ou Jean-Pierre sem interferir no resultado quando se procura um trabalho ou um apartamento. Essa abordagem sustentada principalmente pela extrema esquerda e pelos ecologistas poderia ser válida, mas demanda uma senhora reserva. Vocês são os juízes.

E depois de muitas outras causas, Israel, claro, é recorrente desde que surge um problema, o passado colonial, a proibição da burka, as saias muito curtas, a salsicha, o abuso de Captagon (droga usada pelos djihadistas) etc…

Só uma causa é raramente evocada. Estamos simplesmente lidando com um bando de psicopatas, especuladores sem escrúpulos, frustrados, perdedores, medíocres, crápulas, delinquentes, que vestem seu ódio no papel corânico, cujo Islã reivindicado é apenas um pretexto para atrair jovens homens ou mulheres do mundo inteiro em uma espécie de uma nova epopeia revolucionária. Rapazes que matam sem hesitação, que nos lembram dos nazistas que podiam massacrar em nome de nada, somente pelo prazer de fazer mal. Esses assassinos não podem rogar nenhum deus que seja eles se consideram deuses, tendo o direito de vida e morte sobre quem eles decidirem. São nada mais que pagãos, idólatras da pior espécie.

Jean Yves Le Garrec

Tradução : Ana Paula Candelária