“Evolução Histórica do Brasil: da colônia à crise da Nova República” foi publicado originalmente na década de 1970

Além de um pesquisador brilhante, Theotônio dos Santos foi também um militante político comprometido com os interesses da classe trabalhadora .

A história do Brasil, desde a colonização até a configuração da Nova República, após a ditadura militar, é o percurso empreendido pelo sociólogo Theotônio dos Santos em sua obra seminal recém-lançada pela editora Expressão Popular.

Publicado originalmente no início da década de 1970, o livro “Evolução Histórica do Brasil: da colônia à crise da Nova República” foi sendo revisado pelo próprio autor até o fim dos anos 1990 e agora conta com uma edição atualizada. 

A obra é o destaque do mês de junho do Clube do Livro da Expressão Popular. Neste trabalho, o autor faz um mergulho profundo nas raízes da formação econômica do país, para compreender como se estruturou o processo de dependência da economia brasileira, desde a dominação pelo portugueses até sua atual inserção subordinada dentro da lógica capitalista internacional.

O texto também apresenta uma análise desmistificadora do que foi a economia brasileira durante a ditadura civil-militar, no contexto do tão celebrado “milagre econômico”, mas que tiveram como efeito uma ultra concentração das riquezas e início de um longo processo de desindustrialização do país, que se verifica até hoje.   

“É um livro que faz uma análise cuidadosa a partir da teoria da dependência, mas também uma análise cuidadosa da luta de classes em cada um dos momentos históricos que ele vai observar, desde a colonização até o final dos anos 90”, afirma Mónica Bruckmann, professora do Departamento de Ciência Política e do Programa de Pós-Graduação em História Contemporânea da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).  

Pensamento crítico

Theotônio dos Santos, que morreu em 2018, aos 81 anos, se insere em um seleto grupo de pensadores e pensadoras que ajudaram a desenvolver uma das teorias sociais e econômicas mais originais do pensamento crítico latinoamericano.

Ao lado de Vânia Bambirra, Ruy Mauro Marini e André Gunder Frank, criaram a teoria marxista da dependência (TMD), pela qual passaram a interpretar a forma como o capitalismo se constitui nos países periféricos, a partir do Brasil e dos demais países latinoamericanos.

O principal aspecto de ruptura dessa teoria, que toma como base teórico-metodológica o pensamento marxista, é a ideia de que o subdesenvolvimento não se trata de uma etapa anterior ao desenvolvimento, mas justamente uma condição estrutural em que países da periferia do sistema estão metidos exatamente para que o centro do capitalismo siga dominando as relações materiais de troca.  

“A novidade da teoria da dependência consistiu em mostrar que o caminho de desenvolvimento econômico na Europa, Estados Unidos ou Japão não era viável para as economias latinoamericanas, pois o subdesenvolvimento nestes países, assim como nos países pós-coloniais da África e da Ásia, não era resultado da conservação de economias pré-capitalistas, mas da forma como essas economias se haviam integrado à economia mundial”, explica Mónica Brukmann. 

Nesse sentido, a teoria marxista da dependência buscou justamente compreender o capitalismo dependente brasileiro e latinoamericano não como atraso em si, mas como um processo orgânico de formação do capitalismo internacional.      

“Theotônio utiliza sempre o método marxista, conjugando a análise da lógica das leis do funcionamento do capitalismo com a realidade concreta, suas consequências e as políticas do Estado burguês. Este, a serviço dessa lógica e dos interesses da classe capitalista, desenvolve políticas públicas de incentivo para melhor viabilização da acumulação do capital”, escreve João Pedro Stédile, integrante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), em texto de apresentação da obra do pensador brasileiro.

Trajetória militante

Além de um pesquisador brilhante, Theotônio dos Santos foi também um militante político comprometido com os interesses da classe trabalhadora.

Após passar dois anos na clandestinidade entre 1964 e 1966, nos primeiros anos da ditadura militar brasileira, ele emigra para o Chile e, anos mais tarde, para o México, onde atuou em organizações de esquerda, e ajudando na formação de centenas de jovens pensadores sociais latinoamericanos.

A própria teoria marxista da dependência aponta que não é possível pensar um desenvolvimento econômico verdadeiramente autônomo nas estruturas do capitalismo dependente. “A única saída para um desenvolvimento autônomo e soberano era o caminho do socialismo”, destaca Mónica Brukmann.

Pedro Rafael Vilela

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