Futebol metáfora do mundo

Pequenos textos sobre o Brasil país do Pá e Bola

O menino da várzea

    No Brasil existe um sonho da criançada que é um dia ser um jogador de futebol, quem nunca sonhou? Quando criança me imaginava jogando na meia direita e sendo o cérebro do time, na vida real meu apelido era Craque Redondo porque motivos de gordofobia. Existem muitos campos de várzea onde esses meninos jogam bola, com muitos times e campeonatos espalhados pelos rincões desse Brasil, a minha várzea era um clube chamado Pelezão.

Esses campos periféricos são fábricas de craques, mas é um tipo especifico e bem diferente de jogador, um trabalhador que brilha nos fins de semana, é por gosto e na marra, esses são os craques de várzea. De vez em quando um menino desses se profissionaliza e vai jogar num grande time, por um efeito de mágica ele se esquece do seu passado humilde e da camisa que vestiu, ficando rico e famoso se abre um mundo a sua frente nunca antes visto e isso é hipnotizador. Como diria Paulo Freire, “quando a educação não é libertadora o sonho do oprimido é ser opressor”, e é assim que acontece, esse craque novo rico nem se lembra da sua favela, dos seus amiguinhos de infância, da sua várzea, por um passe de mágica ele se torna um esnobe, passou os portais da riqueza e nem olha para trás. Esse não é um fenômeno exclusivo do futebol, está em toda sociedade, pode ser com um cantor, um ator, alguém da mídia, a pessoa fica famosa e esconde seu passado de pobreza e opressão.

O Brasil é o país das desigualdades e parece muitas vezes que são dois países dentro de um, o clubinho da minoria rica e sem consciência social e os sobreviventes que querem educação, saúde, transporte, segurança, ou seja, as pessoas normais que lutam por ter direito ao básico.

 Logicamente existem exceções a esse fenômeno, e quero falar de um craque singular que veio da várzea, Whindersson Nunes, um jovem que veio do interior do Piauí, ele não é jogador de futebol, nem cantor, é um influenciador digital, um Youtuber que fez sucesso com seu humor e carisma, depois de muito trabalho e de  milhões de seguidores  esse craque passou para o clubinho dos ricos do Brasil, porém nunca se esqueceu das suas origens, pelo visto teve uma educação diferente das que costumamos ver com celebridades.

Na maior crise da saúde no estado do Amazonas por conta do Covid faltou oxigênio, pessoas agonizando por conta dos desgovernos do Brasil, esse craque se mobilizou para comprar oxigênio e ainda conseguir avião para transportar até Manaus, um feito incrível onde o governo federal, o governo estadual e o governo municipal falharam, pessoas estavam morrendo, e ele num gesto incrível gastou dinheiro, tempo e se arriscou onde numa área desconhecida , assim conseguiu enviar oxigênio e mobilizar a sociedade para salvar vidas. Agradecemos muito sua ação, somos torcedores, mas não somos bobos, sabemos que quem tem que tomar conta da Saúde é o S.U.S., o problema é que existe uma vontade de desmontar todo esse gigantesco sistema, nós brasileiros estamos vivendo o caos de um governo negacionista e louco.

Voltando a Paulo Freire, que existam mais ex-pobres que não se esqueçam de suas origens e que tentem realmente fazer alguma diferença nesse Brasil, pessoas que se libertem dos preconceitos e vivam por uma nação. É bom poder vestir uma camisa vencedora e famosa, mas é melhor vestir aquela camisa do nosso coração, da nossa infância, onde sabemos de nós, que possamos ter orgulho de nossas origens e que a sociedade avance igualitariamente.

Paulo Deptuesqui