Pequenos textos sobre o Brasil país do Pá e Bola

SÉRIE a SÉRIE b

     O mundo da bola é dividido em séries, a Série A é a mais rica, é óbvio, tem os melhores jogadores, passa na TV, é puro glamour, clubes de cidades grandes, a conhecida elite que movimenta milhões. Um jogador famoso faz uma pose e ela é imitada por milhares de crianças, daqui a pouco vende muitos produtos e assim vai. Já a Série B é mais humilde, não precisa pegar avião para ir jogar, pode treinar num terrão, muitos jogadores tem contratos de apenas seis meses e dão duro para fazer o que sabem, jogar bola. Futebol deveria ser só uma recreação, mas se tornou algo maior, faz parte da alma do mundo, desde Roma sabemos que o ser humano precisa de Pão e Circo, e o esporte bretão é esse Circo que se espalhou pelo mundo, muitas pessoas não conseguem viver sem o futebol e nas férias ficam meio que perdidas procurando o que fazer. Quando veio a Pandemia e os campeonatos foram suspensos, alguns fanáticos ficavam assistindo reprises e mais reprises para preencher o vazio do seu vício, é uma coisa estranha assistir um jogo que você já sabe o resultado, se você pensar na plasticidade pode até ser, reprise por reprise é melhor reler um livro ou rever um filme, mas cada louco com seu uniforme.

O que eu queria falar mesmo é da Séria A do meu país, Brasil, uma elite muito simpática, que assim que chegou a Pandemia entoou o mantra, FICA EM CASA, está certo, e eles ficaram, nós vimos nas milhares de LIVES que eles estavam em casa, grandes casas, bonitas, maravilhosas mobílias, quem é rico até ficou mais rico na pandemia, o dinheiro não para, é fácil tirar um ano sabático, fazer curso on-line de yoga, de línguas, de terapias, de danças, etc. É fácil pedir as compras pelo aplicativo, pedir comida, até lavar as roupas, é fácil quando se é rico, porem a série A se revela aos poucos, nos outros países as pessoas faziam lives como eventos beneficentes, aqui no Brasil estavam fazendo lives patrocinadas, a cara de pau impera, eles ficaram em casa ganhando dinheiro e foram muito bem assistidos.

Já a Série B ficou louca, o dinheiro não para, mas aqui não é o lucro dos investimentos, aqui são os boletos, é muita motivação para acordar cedo e pagar as contas, o boleto sempre vence, a pandemia assustou muito porque a economia retraiu e quem precisava trabalhar não tinha o que fazer, ia trabalhar com muito medo, é impossível sobreviver financeiramente seis meses com juros de cartão de crédito e cheque especial. A série B é nossa heroína, por exemplo, uma professora em casa, fazendo o almoço, cuidando das crianças, limpando tudo e dando aula ao vivo, isso sem ganhar um centavo a mais, sem treinamento, sem pré-temporada, sem nada, muita gente trabalhou na cara e na coragem, puro improviso, é tipo você estar vendo um jogo na arquibancada e o treinador olha para você, diz pula o alambrado e vem jogar, com a camisa e chuteira que você estava usando só para assistir a partida. Os professores, e outros da Série B pegaram seu uniforme e entraram em campo, fizeram suas aulas com seus celulares, usaram seus computadores e pagaram suas internets, estão de parabéns, mas não devemos romantizar demais essas tristezas cotidianas.

Quando comecei a pensar esse texto logo lembrei que no Brasil nós temos o povo dividido em Casa Grande e Senzala, nossa triste herança escravocrata e colonial, Série A é a Casa Grande é nítido, mas a Série B também é! Só que com menos glamour, porque no Brasil se você tem emprego, casa, internet, você sem querer é elite, a Série C é que veio servir, a Série C que se mata nos ônibus lotados, na jornada de doze horas, no trabalho duro sem férias nem aposentadoria. É aqui que está a Senzala que nunca deixou de existir em Pindorama, essa série C, essa série dos invisíveis, o motoboy, a caixa de supermercado, os carregadores, os auxiliares de limpeza e um mundo de gente que incrivelmente não é notada, mas eles estão em todos os lugares porque sem eles o mundo para, eles estão até na Live dos famosos, afinal quem vai servir a cerveja e limpar a bagunça do cantor brega e bêbado?

Paulo Henrique Deptuesq