Quando essas linhas forem publicadas possivelmente ainda não saberemos sobre o resultado das negociações sobre a Grécia. A verdade é que pouco importa, pois o destino já está traçado.

Tudo o que existe é necessário. A Grécia está condenada pelos medíocres que são úteis para o equilíbrio social, pouco importa que se contem por milhões e os idealistas, nos dedos de uma mão. A troika continua a pregar na eficiência da difamação que se enraíza na complacência estratégica daqueles que a escutam, na covardia coletiva de quem a escuta sem se indignar.

Talvez aqui estejamos filosofando. Com persistência frequente ouvimos perguntarem aos doutores e aos ignorantes: “O que é a filosofia?” Durante 25 séculos a mesma pergunta não para de ressoar. Desde que os gregos a formularam pela primeira vez não houve época culta ou ignorante em que ela não tenha surgido.

Demonstrar o sentido que tem essa pergunta através da história do pensamento humano implica nada menos que escrever uma história completa da filosofia. A resposta não poderia se expressar sem enunciar integralmente o sistema filosófico de cada pensador, tal é a íntima ligação existente na problemática filosófica.

A MAIÊUTICA DE SÓCRATES

Propriamente a partir de Sócrates, ou seja no século V antes de Cristo, em Atenas começou a existir uma filosofia consciente de si mesma e conhecedora dos métodos que emprega. Sócrates é, na realidade, o primeiro filósofo que nos fala de seu método e nos conta como filósofo.

Qual o método que Sócrates usa? Ele mesmo o denominou maiêutica, nada mais que a interrogação. Sócrates pergunta, e o método da filosofia consiste em perguntar.

Sócrates, para definir, para chegar à essência de algum conceito, sai de sua casa, vai à praça pública de Atenas e pergunta a todos os passantes: “O que é isto?” Assim, por exemplo, um dia Sócrates sai de sua casa preocupado em averiguar o que é valentia, o que é ser valente. Chega à praça e se encontra com um general ateniense. Então se diz, “aqui está, este é o que sabe o que é ser valente, considerando que é o general, o chefe”. Aproxima-se e pergunta: “O que é valentia? Você que é o general do exército ateniense tem que saber o que é valentia.”

O outro responde: “Claro que sim! Como não vou saber o que é a valentia? A valentia consiste em atacar o inimigo e nunca fugir.” Sócrates coça a cabeça e diz, “essa resposta não é de todo satisfatória; acontece muitas vezes em batalhas de os generais mandarem o exército recuar para atrair o inimigo a uma determinada posição, na qual pode se lançar sobre ele e destruí-lo”. Então o general se corrige e diz: “Sim, tem razão.” E dá outra definição; e sobre essa segunda definição novamente Sócrates exerce sua crítica interrogativa e continua não satisfeito e pede uma outra nova definição. Assim, à força de perguntas, ele faz com que a primeira definição dada atravesse sucessivas melhoras, por extensões, por reduções, até ficar ajustada o máximo possível, sem nunca chegar a ser perfeita.

Nenhum dos diálogos de Sócrates, que Platão conservou – cujos espetáculos ou encenações que presenciou reproduz com bastante exatidão – consegue chegar a uma solução satisfatória, a não ser que se interrompam, dando a entender que o trabalho de continuar perguntando e encontrando dificuldades, perguntas e mistérios na última definição dada pode nunca se acabar. Essas são as principais características da civilização grega, essa é sua gênesis, então… como não ir consultar seu povo?

A chantagem da Troika ao governo grego de Syriza

Em troca de liberar os milhões de euros pendentes na última seção do atual plano de resgate estão novas medidas de privatização, aumento de impostos diretos, redução das aposentadorias e uma nova reforma de trabalho, entre outras. Significa continuar com a mesma política que conduziu a Grécia a uma situação de catástrofe social e à qual a imensa maioria da população se opõe completamente.

Claro que, no tira e põe das negociações das últimas semanas, os representantes do grande capital continuam fazendo uma grande demonstração de cinismo. Continuam falando de “solidariedade” e “ajuda” aos gregos, quando 92% dos 240 bilhões destinados a “resgatar” a Grécia foram parar nos bancos privados internacionais. Argumentam que as medidas são duras porém necessárias para sair da crise, mas o fato é que a economia grega sofreu uma brutal devastação e seus desequilíbrios (dívida pública de 180% do PIB, desemprego de 27%…) são muito maiores hoje do que antes do resgate.

Ainda assim, como denunciou o ministro adjunto grego da Seguridade Social, os funcionários da troika têm “obsessão” pela “redução de pensões, aumento dos impostos diretos e demissões do setor privado”. Os objetivos reais dos grandes capitalistas são dois: seguir descarregando nas costas da classe trabalhadora o peso da crise econômica e financeira, que está longe de terminar; e esmagar a Syriza, fazendo-a cair de joelhos diante de seus interesses.

A burgueria europeia quer pôr de joelhos o governo grego

A ideia de que a troika vai ceder em sua estratégia de eliminar as conquistas da classe trabalhadora das últimas décadas é uma utopia. Em um dado momento e independentemente do resultado, ela poderia inclusive assumir os grandes inconvenientes de uma eventual saída da Grécia do Euro, inclusive promover sua expulsão, se ela considerasse que, em compensação, se criassem melhores condições políticas para enfrentar a ameaça da classe trabalhadora e o crescimento eleitoral da esquerda que luta. A dependência do mercado mundial e do poder financeiro continuaria sendo a mesma, determinando em última instância sua política econômica e social. O debate de fundo que deve enfrentar o governo da Syriza é a aceitação ou não das regras do capitalismo. E se aceitar o capitalismo como único sistema possível (incluindo a defesa de um utópico capitalismo de face humana) acabará assumindo todas as suas consequências, e dessa forma pode-se ir muito longe. O percurso de todos os partidos social-democratas europeus, começando pelo Pasok, é bem eloquente.

Por Eduardo Camin

Tradução: Ana Paula Candelária