A obra de Abilio Estévez, « Josefina, cerimônia para atrizes desesperadas » (Joséphine, cérémonie pour actrices désespérées) será apresentada de 10 de janeiro a 1° de fevereiro no Teatro da Perfumaria, em Genebra. A peça é dirigida por Carlos Días e magnificamente interpretada por Coralia Rodríguez e Amanda Cepero.

Desde os primeiros momentos temos essa sensação, ao vê-las sentadas ali, em um cenário minimalista representado por duas cadeiras, um cavalo de metal e dois carrinhos de supermercado. Desde a primeira imagem percebemos essa magia que a América Latina tem no sangue, na pele e na voz.

Essa magia que pertence a todas as paisagens, a todos os desertos, aos vales das cordilheras, à areia das praias caribenhas, às sombras da mata amazônica, como também aos sorrisos e às lágrimas dos homens e mulheres que povoam esse continente.

Na forma de contar, sentimos algo de García Márquez, mas também de Jorge Amado nos movimentos do corpo e na dança que nos transporta aos terreiros de candomblé, onde as mães de santo incorporam os espíritos dos orixás da natureza.

Essa presença africana, que existe em uma parte do continente, é uma força telúrica que invade os espíritos e nos transporta por meio do canto e da dança para um universo pleno de sensibilidade e sentimentos.

Dessas duas mulheres, que na realidade não são mais que uma, se desprende uma força intensa e através dessa única história, contada a duas vozes, podemos sentir e respirar o aroma da serra cubana.

Por meio do relato descobrimos que Josefina está caminhando há mais de cem anos. É uma viajante que abandona a casa paterna, situada em terras al Oriente de Cuba, com o desejo de um dia chegar a Havana. Essa mulher, condenada a vagar eternamente, nunca conseguirá realizar seu sonho de um dia chegar a conhecer a capital. Porém, em uma aparente esquizofrenia, ela nos mostra que, como em um espelho, permanentemente se enfrentam histórias de alegrias e tristezas, fracassos e realizações, lágrimas e cantos.

Com as magistrais interpretações de Coralia Rodríguez e Amanda Cepero, mãe e filha, Josefina nos leva a navegar em um mar tão cheio de emoções que não é de se admirar as lágrimas nos olhos ao final do espetáculo, quando as atrizes se revelam e se confessam ao público.

« Josephine », peça cubana e latino-americana por excelência, com a música e os efeitos sonoros ao vivo por Shama Milán, mostra mais uma vez que o teatro pode ser, e é, um formidável espaço onde a realidade, a ficção, a magia e todos os sentimentos humanos se encontram e formam realidades que podem mudar e reinventar a condição humana.

josephine r