O Museu de Ethnographie de Genève (MEG) apresenta até o dia 10 de janeiro de 2016 a sua nova exposição, Le bouddhisme de Madame Butterfly – Le japonisme bouddhique.

Dividida em três partes – a chegada dos primeiros viajantes, o japonismo e a redescoberta do Japão após a 2ª Guerra Mundial – e subdividida em seis seções, a exposição é também um testemunho da evolução da inter-relação entre duas culturas.

Logo na entrada estão dispostos alguns painéis brancos onde são projetadas imagens de estampas (século 19) dos primeiros navios estrangeiros que chegaram quando o Japão se abriu ao mundo. Para ingressar na primeira seção, os visitantes passam por entre os painéis e descobrem uma miscelânea de utensílios, livros e fotos cuja disposição pode parecer aleatórea. Porém, o objetivo é tentar reproduzir a chegada desses objetos ao solo europeu e assim oferecer uma ideia dos primeiros contatos com a cultura nipônica.

Apresentados pela primeira vez ao público, os croquis de viagem do genevense Alfred Paul Émile Étienne Dumont possuem um valor antropológico que seria impossível de ser avaliado em fotografias. Isso se deve à riqueza de detalhes desenhados nos rascunhos, nos quais se revelam o foco da atenção do observador europeu sobre um mundo a ser descoberto.

Influência a mão dupla

O japonismo suscitou o aparecimento de uma nova corrente de arte na Europa, o Art Nouveau, e seu primeiro representante é a tapeçaria belga de Henri van de Velde (1892), que integra a exposição. Ambas as correntes influenciaram a produção de cartazes, que passaram a ser artísticos. Essa transição pode ser vista nos cartazes apresentados, que em pouco mais de uma década substituíram o excesso de detalhes pelas cores vivas e ornamentos estilizados e o anonimato dos autores por cobiçadas assinaturas de artistas.

Prosseguindo a viagem, entra-se na segunda parte da exposição, onde a arte budista e o japonismo budista se apresentam de forma a dissipar eventuais dúvidas sobre essas duas definições. Uma imensa tela de Félix Régamey (« Ponte sagrada e ponte banal em Nikko », 2m15 x 1m50) foi restaurada especialmente para a ocasião e pode ser apreciada pela primeira vez depois de mais de um século. Na pintura pode-se observar Émile Guimet, um dos maiores colecionadores do japonismo, em meio à bela paisagem.

A descoberta do budismo (*)

Ambos viajaram juntos ao País do Sol Nascente. Guimet realizava a pesquisa que o levou a uma nova descoberta : o budismo. Enquanto isso Régamey desenhava os esboços que se tornariam grandes óleos sobre tela quando ele retornasse a Paris (dos quais sete integram a exposição).

Ao transpassar as portas do mausoléu de um shogun, o visitante se aproxima da riqueza material do budismo : diversas estátuas do buda Amida, esculturas de deuses e divindades, estampas, quadros, vestuários e livros litúrgicos, assim como objetos de devoção.
No ano de 1891, Guimet acolheu em seu museu em Paris uma cerimônia budista a pedido de dois bonzos japoneses impressionados com os objetos. As instalações foram adaptadas e com grande pompa realizou-se pela primeira vez uma cerimônia religiosa em um museu. Outras três cerimônias de diferentes correntes budistas foram realizadas anos mais tarde, o que representa uma prova da autenticidade das peças. A Seção 4 da atual exposição é uma reconstituição dessa primeira cerimônia ocorrida no Museu Guimet com a maioria dos objetos utilizados na ocasião.

A fascinação europeia pela arte e pelo budismo nipônico não durou mais do que duas décadas. O ocaso do japonismo ficou evidente com a estreia da ópera « Madame Butterfly », de Puccini, em que a heroína é amaldiçoada por seu tio, um bonzo budista. Uma pintura dessa cena, assim como os croquis do cenário, uma partitura e o programa da primeira apresentação dessa ópera em Genebra também estão expostos. E assim se encerrou uma era.

Amadurecimento de uma relação

O destino trágico de Chio-Chio-san (Madame Butterfly), como se a vida imitasse a arte, se reproduziu no Japão na 2a Guerra Mundial. Porém, apesar de tudo o sol continuou a nascer e a vida, mesmo em meio aos escombros e à desolação, insistiu em continuar. O país começou então a se reconstruir e nos anos 50 voltou a atrair novamente a atenção os ocidentais.

A exposição se encerra com essa redescoberta, na qual os viajantes europeus olham para aquele país de forma mais amadurecida, tal como uma antiga amizade. Prova disso são as novas pesquisas e publicações sobre o budismo da Tradição dos Três Países (Índia, China e Japão), que culminaram com a criação de uma nova disciplina acadêmica, a iconografia budista japonesa.

Atualmente está sendo realizado o projeto internacional Arte Budista Japonesa na Europa (JBAE) a fim de identificar as peças dispersadas no continente, inclusive em coleções particulares. O MEG tem uma importante participação nesse inventário, que é realizado pelo Instituto de Estudos Japoneses Internacionais da Universidade Hosei, de Tóquio, e pelo Asien-Orient-Institut da Universidade de Zurique. O objetivo é dispor em linha um catálogo dos objetos budistas na Europa.

Cronologia

1853 Fim do isolamento do Japão.

1864 Estada do suíço Aimé Humbert no Japão e assinatura de um tratado de amizade e de comércio entre a Confederação e o governo japonês. Ele publica «Le Japon» na revista Le Tour du monde.

1868 Abolição do governo shogunal. Reino do imperador Meiji >1912.

1871 O colecionador francês Henri Cernuschi visita o Japão acompanhado do pintor Théodore Duret. Cernuschi doa suas coleções à cidade de Paris.

1872-1875 Campanha antibudista para fazer do shintoísmo a religião do Estado. Bonzos foram enviados à Europa para estudar o estado das religiões. Na França, Philippe Burty utiliza pela primeira vez o termo «japonismo».

1873-1911 Estada no Japão de Basil Hall Chamberlain, que terminará sua vida em Genebra. Suas coleções estão no Pitt Rivers Museum de Oxford.

1876 Estada de Émile Guimet no Japão para pesquisar sobre as religiões com o pintor Félix Régamey. Jovens bonzos vêm estudar o sânscrito em Oxford e Paris.

1878-1890 Estada no Japão do estadunidense Ernest Fenolossa, que reabilita a arte das altas épocas. Suas coleções estão no Museum of Fine Arts de Boston.

1879 Guimet abre em Lyon seu museu particular de religiões.

1885-1891 Estada no Japão do pastor missionário Wilfried Spinner. Sua coleção está no Musée d’ethnographie de l’Université de Zurich.

1888 Pierre Loti publica seu romance de sucesso, Madame Chrysanthème.

1889 Guimet transfere para Paris seu museu, o qual doa à França. Fujishima Ry on publica Le bouddhisme japonais.

1890 Lafcadio Hearn se instala no Japão e escreve principalmente sobre o budismo.

1891 Koizumi Ry tai et Yoshitsura H gen celebram a liturgia do H onk no museu Guimet.

1892 O suíço Alfred Millioud publica Esquisse des huit sectes bouddhistes du Japon (esboço das oito seitas budistas no Japão), tradução do Hassh -k y do monge Gy nen (século 13).

1893 Criação em Paris da ópera de André Messager, Madame Chrysanthème.

1894 Félix Régamey publica Le cahier rose de Madame Chrysanthème (o caderno rosa de Madame Chrysanthème) contra Pierre Loti.

1898 Abertura do Museu Cernuschi de la Ville de Paris.

1900 Envio de obras de altas épocas de coleções imperiais do Japon à Exposition universelle de Paris.
Fim do japonismo fundado sobre a arte popular da era Edo.

1904 Milão da ópera Madame Butterfly, de Puccini.

1906 Criação em Paris da adaptação francesa de Madame Butterfly, de Puccini.

Fontes : conferência de imprensa, press release e catálogo da exposição (MEG)

Ana Paula Candelária

(*) https://hebdolatino.ch/br/portugues-br/40-cultura/2615-a-riqueza-imaterial-do-budismo.html

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