Carga mental, termo criado por teóricas feministas para designar o trabalho intelectual, mental e emocional que as mulheres executam (Foto: Silvana Martins)

As reclamações de mulheres a respeito da falta de habilidade dos maridos com as tarefas da casa tomaram conta das redes sociais e dos grupos de WhatsApp.

Enquanto mulheres falam sobre a compra de materiais de limpeza mais eficientes, sonham com robôs aspiradores de pó e testam receitas naturebas com vinagre e bicarbonato para limpar banheiros, homens continuam acreditando que são bons companheiros, afinal, é apenas pedir que se levantam para lavar a louça, como se o amontoado de panelas, talheres e copos indo até o teto fosse transparente até o momento que uma mulher diz que a louça está lá e finalmente dá materialidade a um problema que eles fingem não enxergar

Um espinafre está murchando na gaveta de vegetais na geladeira. Apesar de estar fechada no escritório do meu apartamento, trabalhando durante a maior crise sanitária da história, o espinafre é como um volume incômodo que toma os meus pensamentos, uma massa vegetal que vai se desdobrando no meu cérebro, até que suas folhas verdes acabam ocupando quase a totalidade da minha cabeça, com ramificações inesperadas. Através do espinafre, último representante de alimento fresco na geladeira da casa, penso que já está na hora de ir ao mercado, que devo fazer uma lista mais inteligente para evitar o desperdício de alimentos. Lembro que acabou  o papel higiênico, e que talvez não tenha arroz o suficiente para o jantar, logo também me preocupo se minha filha está se alimentando de forma saudável na pandemia e que isso é importante para sua imunidade. Será que deixei alguma vacina do calendário infantil passar? Tenho que procurar a caderneta. E dar um jeito na gaveta de documentos. O espinafre é a madeleine de Proust, no livro em Busca do Tempo Perdido. Mas ao invés de me transportar para minha doce juventude, o espinafre me transporta para uma lista infinita de afazeres domésticos que devem ser executados. Sou vencida por essa avalanche de planejamento mental, saio do escritório, vou até a cozinha e aviso para o meu marido que está responsável pelas refeições do dia:

– Você pode refogar o espinafre para o almoço?

Ele responde:

– O que é refogar?

A história, que virou piada na nossa família, é um exemplo de como funciona a carga mental, termo criado por teóricas feministas para designar o trabalho intelectual, mental e emocional que as mulheres executam. A carga mental é um trabalho invisível de planejamento das tarefas domésticas e de gerenciamento familiar. A ideia não é nova. Foi intuída na década de setenta pela escritora e ativista Silvia Federici, aperfeiçoada por pesquisadoras e feministas ao longo do tempo, mas ganhou corpo e fama nas redes sociais através de um artigo do The Guardian, da colunista Jess Zimmerman, que ironizava o fato de existir uma cultura que acredita que mulheres são multitarefas e que são naturalmente desenhadas para executar funções do lar.

Ouvir pela primeira vez o que era carga mental e como funcionava foi uma revelação; fazia muito sentido para mim que tudo que era feito de trabalho doméstico e de tarefas de cuidado com a minha família exigisse planejamento e conhecimento prévio. Fui mandando artigos e textos para as minhas amigas, e a identificação era imediata. Ao falar com os amigos homens a recepção não era tão calorosa. Eles sequer entendiam que lembrar de aniversários, comprar presentes para as datas comemorativas ou ter sempre pó de café na despensa eram tarefas que exigiam esforço mental que entulha as mentes de suas companheiras todos os dias. Esse trabalho de gerenciamento intelectual e emocional de famílias inteiras, muitas vezes numerosas, fica na responsabilidade de uma única pessoa, e geralmente essa pessoa é a mulher da casa.

 Apesar do esforço que as feministas têm feito ao longo das décadas para que homens e mulheres se conscientizem que as tarefas domésticas devem ser de responsabilidade de todos dentro de uma casa, a distribuição igualitária desse trabalho ainda parece distante: em pesquisa realizada em 2018, o IBGE constatou que  mulheres brasileiras dedicam 73% a mais do seu tempo com tarefas domésticas que os homens. Isso já seria um dado alarmante, mas é importante lembrar que o trabalho mental envolvido nesses serviços não é medido por essa estatística.

Enquanto a educação dos homens não inclui o aprendizado das tarefas domésticas, meninas e adolescentes são ensinadas desde cedo um conhecimento geral que inclui de quanto em quanto tempo toalhas devem ser trocadas, que o feijão deve ficar de molho no dia anterior ao cozimento, que as roupas brancas devem ser separadas das roupas coloridas antes de serem lavadas ou simplesmente saber onde está o material escolar que os filhos precisam para fazer as tarefas; os homens que se consideram bons companheiros alegam que participam das tarefas, como se a casa ainda fosse o espaço essencialmente feminino e eles apenas a ocupassem. É o famoso homem que ajuda, e a palavra ajuda já mostra o suficiente de quem é a responsabilidade.

Para os homens existe um distanciamento emocional dessas atividades – e eles se sentem muito confortáveis em mostrar isso, seja batendo no peito com orgulho para dizer que dizer que sua sortuda companheira precisa apenas pedir que ele faça algo ou perguntando como executar uma tarefa simples, ao invés de simplesmente executá-las, como no caso do meu marido, muito bem intencionado que gostaria de fazer o almoço, mas ainda não se sentia apto para executar a complicada função de unir alho no óleo quente em uma panela e jogar um espinafre meio morto lá dentro.

Outro fator importante que os números do IBGE não mostram é a diferença do peso da carga mental para mulheres brancas e negras. Apesar da pesquisa mostrar pequenas variações no tempo dedicado ao trabalho doméstico entre mulheres brancas (17,7 horas) e mulheres negras (18,6 horas), as mulheres das classes mais abastadas terceirizam o trabalho doméstico para mulheres negras e periféricas. O trabalho doméstico é mal remunerado, tem poucas garantias e custa barato para famílias brancas, o que acaba criando a ilusão de alguma igualdade dentro das casas de classe média; infelizmente, é apenas mais um índice da nossa sociedade profundamente desigual. Fica com a mulher branca a tarefa de gerenciar a relação com a trabalhadora doméstica, da qual o homem se abstém. Enquanto isso, as trabalhadoras domésticas já precarizadas, estão submetidas a um estresse adicional: uma carga mental dupla, um  trabalho emocional e intelectual perpétuo que deve ser feito na sua própria casa e na casa dos patrões. E esse trabalho não é mensurado e tampouco remunerado.

Durante a pandemia de Covid-19 essa crise doméstica provocada pela carga mental ficou ainda mais evidente – as reclamações de mulheres a respeito da falta de habilidade dos maridos com as tarefas da casa tomaram conta das redes sociais e dos grupos privados de whatsapp de diversas classes sociais. Enquanto mulheres falam sobre a compra de materiais de limpeza mais eficientes, sonham com robôs aspiradores de pó e testam receitas naturebas com vinagre e bicarbonato para limpar banheiros, os homens continuam acreditando que são bons companheiros, afinal, é apenas pedir que eles se levantam para lavar a louça, como se o amontoado de panelas, talheres e copos indo até o teto fosse transparente até o momento que uma mulher diz que a louça está lá e finalmente dá materialidade a um problema que eles fingem n
ão enxergar.

A exaustão feminina se tornou um problema tão grave que as teóricas que estudam o tema estão abandonando os termos jornada dupla e jornada tripla de trabalho para adotar o termo jornada contínua, onde a sequência de tarefas e seu planejamento é tão esmagadora, e os limites entre vida doméstica e trabalho estão tão borrados, que a mulher não está trabalhando apenas quando está dormindo. E isso é uma das faces mais cruéis do machismo.

Quando a mulher está  em permanente estado de alerta  e atenção para cumprir todos os deveres impostos, ela não tem tempo para criar, para cuidar da própria saúde, para investir na sua carreira ou simplesmente ter oito horas de sono. A carga mental nos transforma em zumbis, mulheres permanentemente ocupadas que não têm tempo nem para questionar esse sistema ou descobrir o que querem para suas carreiras, para seus relacionamentos e para as suas vidas. Em um nível mais emocional e profundo, como mulheres vão conseguir refletir sobre essas desigualdades e lutar contra elas, ou mesmo entender que merecem mais afeto dentro de um relacionamento insatisfatório se as nossas mentes estão permanentemente ocupadas, sem nenhum período de descanso ou reflexão? A resposta é tão triste quanto simples – enquanto nossas mentes estiverem lotadas de tarefas acumuladas que deveriam ser divididas entre duas ou mais pessoas, não vamos conseguir.

Felizmente, pouco a pouco, essas crenças ganham oposição, seja com o avanço das pesquisas de neurociência e gênero, que já não encontram diferenças estruturais significativas entre os cérebros feminino e masculino, seja nas ciências sociais e no ativismo político que estão de forma consistente demonstrando que a divisão sexual do trabalho é cultural e que a manutenção dessa estrutura é nociva para as mulheres. E se ela não é natural, foi construída,  também pode ser desmontada, dando espaço para que homens e mulheres possam repensar um modo mais justo de se relacionar dentro de suas casas – mas isso não pode ser mais um dos esforços unilaterais das mulheres, precisa ser trabalho intelectual, emocional e prático dos homens também.

Depois do drama do espinafre, decidi abrir mão do meu papel de professora de prendas do lar, e simplesmente voltei para o escritório, tentando não pensar mais em listas de compras e vegetais que se estragam rápido demais. Fiquei imaginando uma realidade alternativa ecológica, utópica, afetuosa, onde conhecimentos tradicionais, saberes domésticos, e tarefas intelectuais e técnicas sejam igualmente valorizadas e remuneradas e onde humanos têm acesso a artefatos hipertecnológicos, como geladeiras inteligentes e tapetes autolimpantes e que finalmente homens estejam dispostos a desafogar suas companheiras desse trabalho chato e ingrato que é pensar o tempo inteiro “o que fazer para todo mundo dentro dessa casa estar bem”.

Mas esse é o futuro distante – e há outro futuro outro que fica logo ali. Fui chamada para o almoço, e nenhuma desgraça aconteceu. O espinafre foi sim refogado, e por iniciativa própria do cozinheiro do dia, com ajuda do google e da mãozinha na consciência. O vegetal foi picado, temperado, incluído em uma receita de creme que deixou todos em casa muito felizes. Uma grande refeição e um pequeno passo em direção a uma realidade onde mulheres mais relaxadas e homens menos folgados poderão viver em harmonia.

*Renata Corrêa é roteirista e escritora 

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