Assistimos dia pós dia ao vergonhoso espetáculo do capitalismo neoliberal, comprovamos como o sacrossanto mercado é incapaz de sobreviver por si só e necessita do Estado e dos bancos centrais para isso. Assistimos aos fundos públicos, ao resgate dos truques dos executivos financeiros. Cabe a pergunta: “Por que temos que salvar esse sistema? Por que temos que nos preocupar com a crise e encontrar uma solução?” Hoje todos os governos na nossa América Latina se mostram aflitos, preocupados porque todas as velhas metáforas do liberalismo se revelaram mentirosas: a mão invisível que harmonizaria os interesses privados e os coletivos conta seus lucros nos bancos do velho continente enquanto houver paraíso fiscal no mundo.

As soluções que propõem, e aplicam, os governantes do Planeta prolonga em qualquer caso a lógica inerente do aumento do lucro como condição de sobrevivência estrutural; privatização de fundos públicos, prolongação da jornada de trabalho, demissão livre, diminuição do gasto social, incentivo fiscal a empresários e os fundos abutres. É dizer que se as coisas não vão bem é porque não estão piores. Os problemas econômicos e sociais de nossa América são muitos e difíceis. Uma grande maioria da população está excluída da “democracia”, do “mercado” e da “modernização”.

A dependência, o subdesenvolvimento, o desemprego, a marginalidade, o analfabetismo e a pobreza não são cicatrizes do passado, como alguns dirigentes insinuam; na realidade as fragilidades de suas economias submetidas ao vaivém do grande capital continuam ameaçando uma grande parte de nossos povos. As políticas neoliberais com seus efeitos alienantes dominam praticamente todo o cenário latino-americano. Contudo, o ideal bolivariano, artiguista (*) y martiano (**) de unidade e integração regional é uma quimera. Os esforços realizados e impulsionados fundamentalmente pelos movimentos bolivarianos têm sido sintomas positivos como processo de identidade política que expressa uma vontade auto identificativa por parte dos governos da região, mas não são suficientes, e são sistematicamente travados no fundamental devido aos níveis de dependência da América Latina dos centros do poder do capitalismo imperial.

Na realidade para explicar a crise capitalista deveríamos começar identificando o que “não é” uma crise capitalista com o exemplo de que existem 900 milhões de famintos no mundo. Não é uma crise capitalista que haja, segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), mais de um bilhão de desempregados no mundo. Não é uma crise capitalista que mais de 50% da população ativa esteja subempregada ou trabalhe em situação precária. Não é uma crise capitalista que, de acordo com a Unesco, mais de 100 milhões de crianças não tenham acesso à educação e que cerca de um bilhão de adultos sejam analfabetos. Não é uma crise capitalista que mais de 16 mil espécies estejam em risco de extinção, entre elas um quarto dos mamíferos. Não é uma crise capitalista que 13 milhões de pessoas no mundo morram a cada ano devido à destruição do meio ambiente e às mudanças climáticas. Não é uma crise capitalista que ondas de imigrantes e refugiados em sua tentativa desesperada por pão e dignidade a sua família sucumbam nas águas do Mediterrâneo. Não é uma crise do capitalismo. Tudo isso acontecia antes da crise. O que é então uma crise capitalista?

Falamos de crise capitalista quando matar de fome mais de 900 milhões de habitantes, condenar ao desemprego e à precariedade 80% do Planeta, deixar sem água 45% da população mundial, derreter os polos, sonegar auxílio às crianças e acabar com as árvores e os ursos já não é suficientemente rentável para as mil empresas multinacionais e um punhado de milionários. O que demonstra a superior eficácia e resistência do capitalismo é que todas essas calamidades humanas – que teriam invalidado qualquer outro sistema econômico – não afetam sua credibilidade nem o impedem de continuar funcionando como tal. Um sistema que quando não tem problemas exclui de uma vida digna a metade do Planeta e que quando tem, soluciona ameaçando a outra metade, funciona sem dúvida perfeitamente com recursos e forças sem precedentes – mas que se parece mais com um vírus do que com uma sociedade de seres humanos. O problema não é a crise do capitalismo, mas o próprio capitalismo. E o problema é que essa crise reveladora, aproveitável para sua emancipação, chega a uma população sem consciência e a uma esquerda sem uma alternativa elaborada. Em um mundo com muitas armas e poucas ideias, com muita dor e pouca organização, com muito medo e pouco compromisso – o mundo que produziu o capitalismo –, a barbárie se apresenta muito mais admissível que o socialismo.

Por isso se temos que salvar o capitalismo – com sua enorme capacidade de produzir riqueza privada com recursos públicos – devemos aceitar os sacrifícios humanos, primeiro em outros países, longe do nosso, depois talvez em bairros vizinhos, torcendo para que nossa conta bancária, nosso emprego, nosso carro, nosso ipad não entrem no sorteio da superior eficácia capitalista. Nós que possuímos algo podemos perder tudo, portanto, nos convém voltar o quanto antes à normalidade anterior à crise, aos mortos do terceiro mundo e aos desgraçados sem esperanças.

Por Eduardo Camin
Chefe de Redação
Tradução do espanhol: Ana Paula Candelária