Anos e anos se passaram como água entre os dedos.

Ahhh o tempo…

E o que é o tempo? É aquela coisa invisível que antecipa e sucede os fatos, que marca sutilezas, eventos passageiros, nuvens em branco, testemunhas de minutos e falas, olhares. Sim, ele também guarda sonhos conscientes em inconscientes horas.

Porém, a minha personagem do instante, é aquela mulher que deixou a vida rolar sem saber. Eu a chamo de Maria, como muitas Marias que vão com as outras.

Alguns anos foram de amor e ilusões motivadas pela alegria, pelo sorriso e pela fortuna.

Quando? Quando a vida era jovem, musculosa e o corpo era de deusa. Os olhares eram todos dela, as falas eram todas ouvidos, o encanto e sedução marcavam o caminho daquilo que podemos chamar do sucesso vaidoso da beleza. Mas a fila anda e o baile do relógio também segue.

A alma não é deslumbrada na perfeição do corpo que, vai perdendo o encanto nas noitadas das esquinas do mundo.

E o confronto da realidade daquilo que se pensa saber e daquilo que realmente sabemos deixou a nossa personagem sem recursos emocionais e financeiros no futuro, inevitável estado das sequências temporais.

A tristeza e depressão de se olhar no espelho e não enxergar mais a autoestima, digamos, ilusória, daquilo que fora por algum tempo o pilar da força de Maria, a levaram a refletir sobre os anos passados sem preocupações em ter uma profissão, em aspectos espirituais, em estudar profundamente a sua missão na sociedade que move o planeta.

O tempo tinha passado e a nossa Maria no alto da escada do tempo, começou a deprimir e se sentiu fraca, incapaz de recomeçar, de visualizar a compreensão do verdadeiro sentido da existência, do participar dos fatos, da contribuição espontânea do ser querendo evoluir, evoluindo junto com os seus iguais, com seus humanos. Morreu como? Nas mãos dos psiquiatras, da indústria farmacêutica, dos antidepressores, calmantes, soníferos e todo o veneno que colore falsamente a nossa emoção.

Finalmente, outras Marias morrem sem cumprir nada de pequeno e nem grandioso. Mulheres que passam por essa dimensão e se vão sem deixar as marcas das suas passagens na energia do todo. Que partem sem nada entender, sem mais nem porquês, como um grande ovo de avestruz vazio.

Por que escrevi essa crônica hoje ? Porque lembrei de um tempo bem distante, quando eu já identificava nas meninas-crianças da minha escola, àquelas que seriam entregues ao movimento do vento contra, sem velas resistentes e sem bons marinheiros.

Por que essas imagens me vieram justamente agora ? Ahhh… artimanhas do destino, encontrei uma foto de olhar vazio, triste e distante de uma Maria antiga, dos tempos passados.

Por isso e mais aquilo, quando identificarmos uma criança com um véu de supostos traumas, que, muitas vezes, são inconscientes e se manifestam em refúgio solitário ou euforia gargalhando, temos a obrigação de observar, ajudar, acalentar e dispor do nosso esforço passageiro como remédio. Uma palavra, um toque e um olhar de valorização, podem salvar uma ser que está aqui para realizar, amar e partir deixando nos corações dos demais a alegria de uma vida plena.

Boa dia, Marias !

Por Miriam Rey