O Mar Mediterrâneo foi um mar feliz, ele não é mais. Se as lágrimas são salgadas, então o Mar Mediterrâneo é uma lágrima que escorre do olho africano. Centenas jazem no seu fundo, homens, mulheres e crianças que não construirão castelos em suas praias. De toda a emoção de uma onda que quebra e em seguida a indignação em tsunami devasta tudo. Aponta-se o dedo para a Europa, a opulenta fortaleza, por sua falta de reação, sua incapacidade de fornecer barcos de socorro e ajuda de primeira urgência. A Europa, esse avestruz que sacode sua cabeça cheia de areia, está sujeita à dor-de-cabeça dos migrantes.

Finalmente, a Europa faz o que ela sabe fazer de melhor, organizar reuniões. A comissão elabora um plano, os ministros de Relações Exteriores e do Interior se reúnem e discutem sobre o plano, em seguida os chefes de Estados ou de governos se reúnem por sua vez e validam ou não o plano. Com duração de uma semana, o custo de todos esses deslocamentos é certamente superior ao da ajuda a ser dada. Mas ao diabo a despesa quando há a urgência em mostrar aos povos que se está fazendo algo. E mais, se há uma opção militar, será necessária uma reunião da ONU, única instância autorizada para as decisões militares. Ainda mais uma semana, sem dúvida. A ONU em Nova York, claro, por que não utilizar a sede da ONU em Genebra, heim, pergunto !

Então teremos perdido algumas semanas antes de reagir. A razão de mil afogados por semana, média atual, não resultou em sepultar na água as esperanças dos migrantes. Migrantes que continuarão a enriquecer seus coveiros. Coveiros que continuarão a enriquecer terroristas do Daesh, da Al Qaida e outros movimentos mortíferos que lutam, como se sabe, por um futuro melhor e em paz. Antes se fazia a guerra e depois se fazia a paz, agora se faz diretamente a guerra em nome da paz, pois é mais cômodo fazer os dois ao mesmo tempo. É um enfoque mais moderno, em um mundo que anda como um cavalo louco. É inclusive uma doutrina válida para todos os países do mundo, não somente para um bando de torturadores ou açougueiros que se pretendem certificados Halal.

Claro que há também a diluição de responsabilidades. Diluição de responsabilidades das grandes potências repentinamente paralisadas pelos altos funcionários das instituições supracitadas, porque realmente estalar alguns barquinhos velhos é algo que deveria estar presente em todas essas reuniões. Então é assim e se eu compreendo esses processos democráticos cuja mensagem é não se rebaixar a utilizar os mesmos métodos que os agressores inescrupulosos, da mesma maneira não deveríamos cair no excesso de zelo.

E depois há um efeito borboleta. Os velhos conflitos sanguinários, no Sudão, na Somália, fazem com que refugiados desses países se encontrem a milhares de quilômetros de suas casas, à beira-mar, que eles seriam incapazes de situar em um mapa. Um mar que eles imaginam como uma última linha a cruzar para esquecer todos os horrores. Um mar transformado em muro, o muro da vergonha. Um mar, o mar que alimenta os homens com seus peixes e não o contrário. Um mar que se transformou no túmulo dos migrantes anônimos.

E se eu fosse cínico, diria que apesar de todas as dificuldades para se tomar e aplicar decisões, elas serão tomadas, rapidamente. Urgência humanitária, sim, sem dúvida, isso ajudaria. Mas acima de tudo daqui dois meses começará uma outra migração para o Mar Mediterrâneo, a de milhões de turistas que entrarão em suas águas, a pé ou de barco, e cujas férias felizes não se deve estragar.
Business is business !

Texto de Jean Yves Le Garrec
Traduzido do francês por Ana Paula Candelária