Se o pobre é sempre uma grande causa internacional, o seu alter-ego, o precário, tornou-se uma pequena causa nacional. Em outras palavras, vivendo na era da semântica, sobretudo nas democracias ocidentais, os políticos falam de precariedade e agora chamam os pobres, os precários. O resto do mundo se contenta de guardar a palavra probreza.

Os pobres,

Há pouco li (sim, isso me acontece: ler) na Revista Semanal Francesa Marianne, número 997, de 20 de Maio a 26 de 2016, uma entrevista com um editor francês e teólogo, Jean-François Colosimo. Ele dá a sua opinião sobre o último livro de Regis Debray “Carnet da estrada, escritos literários, Edição Gallimard, coleção quarto”. Ele explica como percebe o seu autor. Afirma que, para ele, “os pobres são as figuras mais essenciais da humanidade”. Bem, mas não é isso que eu queria falar. Veja como é doloroso citar coisas que lemos, temos que precisar tudo e isso, claro, come um parágrafo … .. pfftttt, estou brincando!

Uma frase neste artigo me chamou a atenção. “Debray diz que é um homem viceralmente de esquerda, mas com uma peculiaridade: é anexado não para dissolver a nação, ou a República dentro da Revolução, mas pensar na Revolução, a partir de um “dado” concreto da finidade que é a condição de universalidade. Eu fiquei pensativo, primeiro tentando entender e depois me questionando, não no sentido de que eu realmente não entendo (mais uma vez eu não me importo), mas sobre como expressar. Não duvido da sinceridade de Regis Debray nem o seu compromisso, mas sim da apresentação de seu livro.

Pergunto-me como “a figura mais essencial da humanidade”, ou seja, o pobre, faz para encontrar-se dentro de tal lirismo literário. É certamente muito bonito, muito grande, por um punhado de intelectuais, mas para os simples mortais que, a cada dia, vão para o carvão, é conversa fiada. E então, percebi que muitas discussões são conduzidas por oradores na mesma linguagem tão obscura. Tornando-se, em suma, entre o Parisianismo intelectual incompreensível fora de um determinado círculo e os livros que “explicam aos nulos” quem nós somos, não há grande coisa, nada, o vazio, o vazio do pensamento político e este vazio de pensamento político, que nunca nos dá vontade, torna-se a porta aberta para qualquer abuso.

Mas talvez o pobre se tornou um conceito? Uma noção abstrata. ou uma figura encantada, sagrado, um certo discurso político, quase deus. Assim, os pobres estão no centro desta nova religião que quer se iluminar, altruísta, mas que várias igrejas brigam pela exclusividade. É óbvio que ninguém se apresenta com os pobres nos encontros acadêmicos como em séculos passados. E mais ainda, uma única senhora padroeira, cuidar de seus “pobres”, a grandes golpes de moral e sinais da cruz.

pauvreFinalmente, vamos ser indulgentes, alguns tem apenas a generosidade unicamente generosa e não julgam ninguém.

Ou os pobres tornaram-se uma nova raça. Que tenhamos certeza, ele não estão em extinção, mas sim, em via de expanção. Nossos amigos ambientalistas, que se dizem defensores fervorosos dos pobres, serão felizes. Eles trabalham arduamente para deixar o pobre em seu estado natural, não é?

Então para o pobre do campo, criamos uma cooperativa, compramos o seu trabalho a um preço justo, o preço de venda daqui e o preço de lá? Temos de ajudar os pobres, mas não muito, como grandes varejistas internacionais aproveitam-se do rótulo, o comércio equitável.

O pobre sabe que ele tornou-se um valor universal? Um bom produto na mídia. Às vezes, algumas estrelas entram nas casas dos pobres. Eles se maravilham com a vida dos pobres, essa simplicidade e a sensação de bem-vindos, estão sempre pronto a sacrificar suas reservas escassas para recebê-los dignamente. As estrelas prometem de nunca esquecer, após dez dias de estadia! E nós, olhamos para a televisão que através da publicidde arrecada milhões para essas emissões. Proteger os pobres, porque eles produzem riquezas para os outros. O pior deste tipo de programas é fazer com que a visualização, sejam daqueles que foram prejudicados. Eles parecem rir de bom coração, mas eles são realmente enganados por essa representação, o que eles jogam? Decoração… os pobres tornaram-se um cenário da tele-realidade.

Por que se falamos dos pobres, nunca iremos ouvir, eles falarem. Qual a necessidade de ouvi-los, uma vez que nossos intelectuais, já sabem tudo sobre eles. Eles estão lá para colocar-se em evidência, e não sobre o sujeito de suas blablaterias. Os pobres, eles são examinados, analisados, radiografados, praticamente dissecados. Eles organizaram viagens de estudo para ver o pobre exótico, o pobre distante, o pobre em cores. Eles descrevem seu habitat, suas roupas, seu ambiente, alimentação, meios de subsistência e até mesmo sua sexualidade e não tem nenhum pudor ou restrição nesse estudo dos pobres. Paixão dos pobres, logo traduzido em livros, ensaios, filmes e palestras. Resumindo, muito dinheiro em suas costas, que o pobre nunca verá a cor …

O pobre produz toda a riqueza do mundo, mas é o único que não se beneficia desta riqueza. O paradoxo do pobre é fazer viver generosamente os outros, mas não a sua família. É de fato um paradoxo ou apenas o seu papel? De ONGs em ONGs dentro deste teatro humanitário, o pobre olha para todos estes atores que agem em seu nome, que recolhem dinheiro em seu nome e que parecem saber melhor do que ele precisa. Fundo de comércio das ONGs, o pobre tem um futuro brilhante à sua frente enquanto pobre.

Bucha de canhão, carne à religião, carne à compaixão, carne à doações e, ocasionalmente, carne à revolução.

Por que, sem ofensa para todos os teóricos da luta final ou para aqueles que só sabem pegar o trem andando, o pobre sabe fazer a revolução. Ele sabe fazer melhor do que qualquer um, o que deve ser feito, sem precisar explicar os princípios revolucionários. Ele sabe começar a luta, a liderança, mas, infelizmente, muitas vezes não se atrevem a acabar. Ele acha que não é bom para a política e deixa o poder para outro, que acredita ser sincero. No mundo todo, só um homem pode reivindicar e encarnar o poder dos pobres, o ex-presidente do Uruguai, José Mujica. Este homem de esquerda, a esquerda ocidental deveria imitá-lo, eles que amam tanto dar lições.

Esta esquerda ocidental, valorizada pelo poder e que não sabe ouvir e nem escutar as pessoas, que través de um jogo semântico tem transformado “o pobre” pelo seu engajamento em “precário” por seu fracasso. Como vocês podem ter notado que nos países ocidentais, não falamos mais de pobreza, mas sim, de precariedade.

O acordo duvidoso do molho da direita liberal. É isso. Nós garantimos um mundo onde não terá mais pobres, graças a liberalização política de mercados e de todo o poder financeiro. Claro, nós deixaremos polvilhar algumas colheres sociais, mas não exagerem! E as esquerdas ocidentais reconhecidas que chafurdam como pequenos porcos na merda. Temos erradicada a pobreza, elas proclamam. Elas nos fazem penetrar em um novo mundo, o da precariedade. O paradigma do homem precário.

Jean-Yves Le Garrec

Traduzido do Francês para o Português por Miriam Rey