Já faz seis meses que o coronavírus se instalou em nossas vidas. Em seis meses o covid-19 matou mais do que a guerra na Síria em oito anos, mas muitos ainda insistem em negar sua existência e em minimizar seu impacto.

Nos últimos seis meses, aprendemos muito em termos científicos e sanitários sobre a nova epidemia. No entanto restam dúvidas a respeito da imunidade dos curados, dos sintomas que persistem – em alguns casos, durante meses – e das sequelas, principalmente neurológicas, que demandam meses de reabilitação.

Esse novo coronavírus nos surpreende diariamente, por exemplo com as notícias que chegam do Vietnam sobre uma nova mutação que o deixou mais virulento do que as cepas encontradas na Europa ou na China.

Contudo, a esta altura da epidemia, e com a experiência acumulada de séculos de combate a outras epidemias tão ou mais mortais do que o covid, as nações têm todos os elementos necessários para aplicar políticas sanitárias efetivas que restrinjam o contágio.

Mas não é aí que se encontra o problema e, sim, no contexto de polarização extrema em que se encontra atualmente o planeta.

Num contexto de guerra econômica entre EUA e China, de disputa por influência no Oriente médio, com forte presença da Rússia de Putin, de ativismo iraniano, de continuação dos projetos atômicos da Coreia do norte, de crescente apetite intervencionista turco, de avanço do projeto de anexação das colônias na Cisjordânia pelo dogmático e intransigente governo de extrema direita israelense, ao qual se soma o complexo panorama de fome, miséria, guerras e corrupção nas nações africanas, o vírus se converteu numa verdadeira arma nas mãos de governos autoritários, que o utilizam como justificativa para concentrar o poder e perseguir opositores, e assim reforçar suas políticas reacionárias.

Politização da pandemia

Algumas nações estão cometendo o grande erro de instrumentalizar um problema sanitário grave, politizando-o ao invés de buscar soluções práticas baseadas no conhecimento científico e no diálogo permanente com os diferentes atores da sociedade.

A politização da epidemia leva alguns governos, mais interessados em sua própria sobrevivência do que na de sua população, a subestimar seu impacto. Como Jair Bolsonaro, por exemplo, que reduz o problema a uma “gripezinha” e segue em sua política negacionista e baseada em fake news. Ou como Donald Trump, que admitiu ter mentido à população sobre a gravidade do problema e chegou a sugerir que as pessoas ingerissem desinfetante para evitar infectar-se. Ou ainda como Piñera, que insistiu em proteger o Ministro da Saúde Jaime Mañalich, que acabou caindo em consequência das mentiras e manipulação da informação sobre o avanço da epidemia no Chile.

Estados Unidos, o fim de uma era?

O mundo assiste incrédulo ao agravamento da epidemia e ao acirramento das tensões sociais em solo norte-americano. Uma revolução parece estar a caminho, em decorrência não apenas dos estragos causados pelo vírus, mas dos séculos de mentiras e violência sobre as quais se construiu esse país. O “American way of life” revela-se falacioso, e põem-se a nu os privilégios dos WASP (3) e o racismo visceral que atinge não apenas os afrodescendentes como as populações de origem latina, asiática e mesmo irlandesa (4).

Os EUA são uma nação construída sobre a escravidão e sobre o genocídio dos povos nativos. Uma nação que já nasceu marcada pelo medo e pela injustiça.

Sobre estas bases se formou um sistema baseado no individualismo egoísta, no Estado mínimo e na ideia de que o fim justifica os meios.

São, provavelmente, o país onde os gangsters e bandidos exercem maior fascinação e são considerados heróis, como Al Capone, Jesse James e Billy the Kid.

Isso resulta numa sociedade marcada pela desigualdade e pela ausência de leis de proteção social. Direitos fundamentais como educação e saúde, convertidos em bens de consumo, são acessíveis aos que podem pagar por eles.

Neste momento, Os EUA possuem quase 5 milhões de pessoas infectadas e chegaram perto dos 160.000 mortos, com uma média de 1.660 mortes diárias. Em alguns meses, o vírus já matou mais do que vinte anos de guerra no Vietnam (5), na qual cerca de 58.000 norte-americanos perderam suas vidas.

Do ponto de vista econômico, o país vive um período nefasto. Para Jerome H. Powell, presidente do Banco Central norte-americano, este é “o pior choque econômico dos tempos modernos”. Milhões de pessoas perderam seus empregos num mercado de trabalho já devastado.

A crise econômica não afeta todos da mesma maneira, sendo as populações minorizadas de latinos e afrodescendentes as mais atingidas.

Como Bolsonaro no Brasil, Trump combateu as medidas sanitárias de contenção do contágio e se opôs a prefeitos e governadores que as aplicaram, em nome da economia e visando sua sobrevivência política. Governadores foram declarados inimigos da nação e responsabilizados pela crise econômica e pelo desemprego por terem aplicado as recomendações da OMS, em especial as medidas de confinamento. Diante das eleições que se aproximam, a responsabilidade de Trump por milhares de mortes deve ser apontada e tratada como uma questão central.

Incompetência e caos.

O comportamento desastroso e incompetente de diversos presidentes agravaram o caos político e social e vem adiando a possibilidade de recuperação das economias nacionais, diante da falta de planejamento e rigor na aplicação das medidas de combate à pandemia. Na ausência de uma política sanitária pragmática, vigora o cada um por si e abre-se espaço para o crescimento das forças reacionárias e de suas teorias negacionistas e conspiracionistas.

Na Europa, depois de um momento inicial de êxito no controle da primeira onda de contágios, medidas precipitadas de retorno à “normalidade” provocaram a volta do espalhamento, que atinge níveis perigosos e volta a preocupar os governos.

Países como Portugal, Alemanha ou Suíça, antes elogiados por suas políticas de controle da epidemia, vivenciam um retorno alarmante do aumento diário do número de casos. Isso se deve à retomada precipitada das atividades econômicas, à utopia de recuperar o turismo ainda este ano e à irresponsabilidade de considerar a indústria da festa mais importante do que a saúde das pessoas.

Para além de um problema sanitário, a situação atual nos remete a uma questão psiquiátrica. Em grande parte do planeta, estamos vivendo um período esquizofrênico, em que medidas para evitar uma segunda onda do vírus convivem com a abertura precipitada da economia numa busca de retorno ao que era “antes”, ainda que isso seja impossível.

Os países e as economias devem adaptar-se e buscar novos caminhos para solucionar uma crise cujo fim ainda não podemos vislumbrar.

Algumas pessoas, principalmente entre os jovens, estão agindo como se a emergência tivesse acabado. Grande erro!

Uma nova explosão de casos que obrigue a um novo confinamento será desastrosa tanto em termos econômicos como psicológicos.

A superação desta crise, no entanto, exige o compromisso de cada um.

Se os Estados europeus forem novamente obrigados a determinar o confinamento, será em consequência, em primeiro lugar, da falta de políticas claras dos governos , da pressão dos meios econômicos para o retorno a uma “normalidade” impossível e à falta de compromisso de cada um, individualmente, com o pacto coletivo que devemos assumir em relação à comunidade.

Negar o real não o elimina, como nos mostram as tentativas de apagar a existência dos campos de concentração pelo negacionismo nas últimas décadas. Isso não impede que as câmaras de gás sigam fazendo parte do nosso passado…

É preciso enfrentar o fato de que estamos diante de uma crise sanitária mundial e de que devemos apoiar-nos na ciência para resolver o problema. O resto é parte da loucura humana, da irresponsabilidade individual e coletiva e da má fé do mundo político, que mataram e seguem matando.

Notas:

(1) https://es.thefreedictionary.com/naci%C3%B3n

https://es.wikipedia.org/wiki/Naci%C3%B3n

(2) https://www.laprensa.com.ni/2020/06/14/internacionales/2685264-

(3) https://es.wikipedia.org/wiki/White_Anglo-Saxon_Protestant

(4) https://historiasdelahistoria.com/2012/11/15/los-esclavos-olvidados-de-america-los-irlandeses

(5) https://us.as.com/us/2020/04/29/actualidad/1588184069_433634.html

https://es.wikipedia.org/wiki/Guerra_de_Vietnam

Traduzido por Diana Berman

Alfonso Vásquez Unternahrer