O pôr do sol está lindo, mas, outros iguais eu já vi. O quê? A voz interior interfere no discurso mudo.

O momento de observação voa entre eu e as meninas sentadas um pouco longe da minha área e seus telefones com mil selfs.

Pensamentos correm, intuição freia o atropelo do inconsciente. Um calor interno perturba o ego que sempre quer ser a star da vez. Inspiro aquilo que podemos chamar de cancela, limpa e passo a outra coisa. Hummm… Sorrio para a imposição consciente.

Olho em frente, vejo o reflexo de luz nas águas que rolam imperturbáveis, tipo um espelho solar. O Deus sol é louvado entre o « eu e o céu ».

Um suspiro desanimado toma conta da minha mão, tenho que escrever algo, o síndrome da página branca dos escritores encarna, cola no meu espaço.

O ar é puro vento de Genebra, a tal Bisa toca o meu pé, a caneta que escrevo pede : Atenção.

Um cara passa andando encurvado com uma mochila nas costas, olho para ele e começo a imaginar a vida daquele humano, talvez more em um apartamento com outros amigos, espere a sexta-feira ansioso e cansado, e a sua namorada é apenas um contatinho.

Estou sentada em uma pedra confortável, se é que existe, mas, a minha parece uma almofada macia das bandas lá do Oriente. Eu estou por enquanto na terceira dimensão dentro de uma meio floresta e um rio gelado, longo e sem vaidade. O céu azul em cima, a areia branca tocando todas as partes íntimas e explícitas da praia.

Algumas crianças brincam as brincadeiras sem focar nos lados, fixas na diversão entregue restrita, no seus campos limitados de visão, o instante presente é rei, sem passado e futuro. Me vem na cabeça um tempo distante em um beco sem saída na minha terra, eu vivia o êxtase do tudo conhecer e nada saber. Que maravilha de estado. Uma pontinha de saudade penetra o meu ser, mas, logo vai embora com um tchau sem mais nem por quês.

Agora, os cachorros frequentadores deste lugar, invadem aquilo que posso chamar de preenchimento do ver. Eles são de todas as raças e cagam felizes, sacudindo o rabo para os seus donos que se parecem com eles, esperando a bolinha ou um pedaço de vara, atirados pelos seus mestres no grande rio, eles correm afoitos para pegá-los, sublime pureza.

O ar começa a esfriar os meus ossos, não sei exatamente em que dimensão colei agora.

Novamente olho o reflexo da luz no rio e sinto a inocência de uma golfada de prazer que entra na minha alma que já é corpo.

Levanto devagar, deixando a minha pedra sozinha, pego a minha mochila como um robot anestesiado e finalmente dou um último olhar-sorriso para a beleza que se exibe nua para os meus sentidos.

Faço uma foto, já na vibe da realidade, pensando em postar no instragam.

A reflexão automática do presente calculado volta: “Tenho que ir ao supermercado”.

Por Miriam Rey