Primeira parte : Os Sangradores da Dívida.

O Fundo Monetário Internacional ou FMI se tornou a « água rasa » da finança ultraliberal. Em outras palavras, o credor supremo, que não escuta o sofrimento dos povos, está às ordens dos bancos e da finança mundial, os onipotentes deste mundo, os Sangradores da Dívida.

O FMI ou Fundo Monetário Indigno, em detrimento de sua missão de socorro e assistência a economias em dificuldade, serve acima de tudo para proteger os interesses de seus temíveis e poderosos amigos, permite que se afunde na água a cabeça de quem ele deveria manter fora, mesmo que fosse na altura da linha de flutuação. Mas não, a diretora do FMI, geralmente chamada a patroa do FMI, está mais preocupada com a data do pagamento de um empréstimo do que com as consequências dramáticas que o sacrossanto respeito a essa p… de data imposta, mesmo a urgência sendo apenas dogmática.

É verdade que a Senhora Lagarde, aqui patroa do FMI, foi menos intransigente quando, ministra da Economia francesa, deu sinal verde para um cheque de cerca de 500 milhões de euros a um empresário duvidoso que se dizia lesado pelo Estado. Por isso ela corre o risco de ser condenada na França. Sem esquecer DSK (Dominique Strauss-Kahn), a quem ela substituiu a toque de caixa (ou de cama) quando este foi acusado de tentar abusar da senhora da limpeza.

Eis o que para a direção do FMI é brilhante. Com um salário anual de alguns 500 mil dólares líquido, pois não paga imposto. Sim, todos os funcionários internacionais não pagam impostos, mas são pagos pelos nossos. Somente um europeu pode dirigir o FMI e somente um estadunidense pode governar o Banco Mundial.

O FMI, ou Fundo Monetário Infernal, foi criado em 1944 e é constituído por 188 países, os quais cada um paga a sua cota. Seu fundo próprio se articula em torno de 300 bilhões de dólares. Darei todos os detalhes (Wikipédia) resumindo essa história, mas saibam que os EUA detêm sozinhos 16% dos direitos de voto e são o único país com direito a veto, além de a moeda de referência ser o $ (dólar) e o FMI não ter nenhum controle sobre esse país.

Reconheçamos que os estatutos referentes à representação dos países têm evoluído, incluindo maior peso dos países emergentes, mas no conjunto da Europa pesam ainda 30% dos votos. Por fim, de regulador das taxas de câmbio entre as diferentes economias, outro encargo que não assume mais (hoje a regulação das taxas de câmbio se faz diretamente pelo mercado), o FMI só garante a ajuda aos países em dificuldade financeira por empréstimos ou conselhos, ou seja, por imposições.

No país dos Ursinhos Carinhosos, o FMI poderia ser uma boa solução, mas a realidade é totalmente diferente. Sujeitos a condições draconianas, esses empréstimos são mais destrutivos que construtivos. A primeira condição é a desregulamentação do mercado de trabalho do país a ser ajudado ; depois, o aumento dos impostos das classes médias e pobres ; baixar drasticamente a aposentadoria, corte líquido nas despesas sociais. Então o papel principal do FMI, que deveria ser o de fornecer créditos aos países cujas economias estão em crise profunda, não passa de um salvamento do sistema financeiro desses países e a ajuda a seus bancos e mercados financeiros. Grosso modo, intervir quando um país ameaça não pagar o empréstimo feito por países estrangeiros.

Porque está cada vez mais evidente e cada vez mais vozes denunciam que o FMI « emprestou » dinheiro à Grécia, não para ajudá-la ou a seu povo e a seus próprios bancos, mas somente para salvar os bancos estrangeiros que tinham investido bilhões de euros nesse país quando eles mesmos sabiam perfeitamente das fraquezas de sua economia. A menos que os grandes banqueiros sejam ignorantes e imbecis, o que não é nada tranquilizador.

Leiam o artigo do jornal Libération da semana passada sobre o assunto, « Grécia : Anatomia de uma manipulação », redigido por Vittorio de Filippis et Maria Malagardis. Mas também lembremos-nos do Equador, cujo governo recentemente eleito tinha herdado uma dívida colossal acumulada pela ditadura. No final das contas o FMI teve que renunciar e apagar essa dívida. A Argentina, que sangrou seu povo para satisfazer o FMI e cuja economia despencou de novo em 2001 caindo numa grave crise, dessa vez manda o FMI « passear » e se sai muito melhor. Claro, resumo, pois a sórdida realidade dos planos do FMI é aterrorizante para os povos que não são em nada responsáveis pela dívida de seus países, mas que pagam o preço exorbitante.

Eis aqui, o cenário está pronto, o teatro pode abrir as portas e levantar as cortinas para a tragédia grega.

Em um artigo precedente falamos da dívida desse sexto continente, totalmente artificial, mas que pouco a pouco vai fazer rodar os outros cinco com seu peso desmedido, seu apetite nunca satisfeito, sua velocidade do som a engolir tudo e que vai terminar em uma explosão, ou mesmo em um big bang. A Grécia, que ainda se lembra que foi admitida na zona euro maquiando suas contas e que os responsáveis políticos o sabiam perfeitamente e simplesmente fecharam os olhos.

Anos mais tarde essa irresponsabilidade coletiva, essa recusa a enxergar, essa cegueira a fim de preencher a zona euro, vai se voltar contra seus genitores. Quem não sabia na época que os impostos na Grécia eram quase inexistentes ? Que as aposentadorias se faziam integralmente e « à la carte » ? Que os armadores são isentos de impostos ? Está escrito preto no branco na constituição desse país. Então será culpa dos gregos ? Certamente um pouco. De seus magistrados ? Certamente muito. Mas o resultado é inversamente proporcional, muito sofrimento aos gregos e tão pouco para seus magistrados.

E o que ouvimos agora ? Os alemães, que nunca pagaram os danos da guerra, devolução de um empréstimo forçado, dão grandes lições a esses pequenos pastores analfabetos, esses famosos pastores gregos com gosto de Retsina. Os franceses, do alto de seus 2 bilhões de euros de dívidas, pregam a virtude e o assassinato fiscal que dominam tão bem. Os ingleses, que possuem a metade do Parthénon em um museu em Londres, talvez quisessem a colina que vai junto ! Todas as grandes democracias que saquearam a história da Grécia agora querem também saquear seu povo. Sem esquecer a nulidade e a intransigência da comissão econômica do Conselho da Europa, dirigido por um antigo ministro das Finanças francês que brilha por sua incompetência e agrava, entre outras, a dívida desse país.

Porque o resultado desse cinismo do FMI é irrevogável – pois associado à comissão europeia, ao banco europeu, fortemente apoiado pelos governos dos principais países dessa famosa comissão econômica –, esses Sangradores da Dívida têm, num primeiro momento, pedido ao povo grego para furar seu bolso e, agora, também lhes pedem para tirar as calças… Por que se incomodar ?

Há alguns meses, nos repetiam « pfffft se a Grécia, apenas 2% da economia europeia, sai da zona euro, haverá apenas um pequeno impacto ». Agora nos apresentam o « Grexit » como um cataclismo nuclear, fazendo uma pressão a mais no povo grego : vocês serão responsáveis pelo colapso da zona euro, então… paguem ! Mas já estamos de joelhos, implora o povo. Deitem-se e paguem ! Ordena o FMI. Mas não somos responsáveis por essa dívida, urra o povo. Sim, respondem em coro os Sangradores da Dívida, vocês elegeram os responsáveis, então vocês são cúmplices e pouco importa se vocês sabiam ou não o que faziam suas elites, então… paguem !

Continua…

Jean-Yves Le Garrec

Tradução do francês: Ana Paula Candelária