Enfim, abro a janela encantada do meu apartamento em Plainpalais, no 7° andar. Confesso que, a vista é mais que demais, nada em frente é maior que o meu prédio. Deslumbro cada dia, as montanhas do Jura e um pedaço do Salève, um presente surpresa sempre, no amanhecer das horas.

Como ?  Sim, a quarentena foi uma viagem interior, nos primeiros tempos, depois foi a rotina do piloto automático, acordar ok, café ok, trabalhar em linha ok, meditar ok, ler ok, filmes ok, dormir ok… E vários ok´s se acumularam na expectativa.

Os minutos se sucederam e ganharam reflexões, informações, falas pelo whatsapp, presenças físicas só na imaginação e a mutação começou a ganhar espaço no meu espaço. Momentos de angustia misturados com compaixão, sensibilidade pela incerteza e o choro dos mortos em estatísticas desumanas. Compreendi que dentro de mim existe mais pena, tristeza e solidariedade pelo o outro, tão longe dos outros, do que eu imaginava.

As dúvidas começaram a invadir o meu ser, dias e noites passando e nada de concreto na verdade-metade. O governo Suíço e outros países, junto com a ciência, não tinham a clareza-clarividente da nova pandemia, não entendendo um minúsculo ser que achava hospedeiros em todo lado e depois, se tranformava em UTI´s de hospitais. Foram tempos difíceis na solidão do nada entender-imóvel. Segui todas as recomendações, agi dentro das instruções ditadas diariamente, e assim, as coisas começaram a clarear no país do chocolate.

Tivemos um excelente desempenho, hospitais sem saturamento, população focada no isolamento social, comércios fechados, a economia trancada a sete chaves, apoio financeiro, ótimas informações cotidianas e a paz de um novo horizonte aberto, começou a ganhar vida.

Os 52 dias de confinamento restaram como aprendizado para muitos, evolução espiritual, intelectual e talvez, emocional. Para outros, a tristeza da dificuldade econômica, espaços pequenos, contato e cobrança de fatos do passado, brigas e violências. Cada um individualmente, sabe a dor de ser o que é.

E no entanto, tudo passa, somos passageiros nesse espaço-tempo. Tanto o sofrimento como a felicidade são cíclicos nessa dimensão. O velho ditado tem toda razão: “Não há dor que dure nem alegria que perdure”.

De repente, os contágios e mortes foram zerando, a saída foi aberta, o povo, no começo tímido e ainda preocupado, começou a dar os primeiros passos na aventura das ruas.

Mas, as falas advertem que o virus ainda está presente e que pode se incrustar, como um ladrão discreto, em nosso corpo. O ser humano esquece facilmente do bom e do ruim, um pouco pasma, obervo que a ânsia de estarmos juntos ocupou as praias do Rhône, do Lago Leman e dos parques. Genebra vibra em ondas de entusiamos.

Multidões mais ou menos coladas, sem máscaras e nem ai, formam um formigueiro afoito pelo sol, pelo lazer, pelo aperitivo das 18h entre amigos e o covid-19 espreitando nossos passos.

As ideias brotam na minha mente, onde estará escondido o inimigo invisível que de uma hora para outra, não mostrou mais a sua cara virulenta. Certamente, espera calmamente as aglomerações começarem os « beijinhos e abraços », será ?

Enquanto isso… No meu país o bicho come solto, por aqui, a calmaria, por lá, os confrontos politicos, a discórdia entre a ciência e o governo, as 500 mil contaminações e 30 mil mortos. O fogo do improvável ganhando chamas concretas, sem bombeiros para apagá-lo. Novamente a minha compaixão se mistura, dessa vez, com indignação e raiva, do descaso em que o meu povo se encontra, as minhas raízes, o meu passado. Sofro, lágrimas impotentes retornam no meu dia a dia.

Eu, sendo protegida em um país que pensa o que faz, enquanto isso, a minha família, os meus amigos, as minhas origens sendo devastados pela incompetência da saúde pública, de governantes incapazes e de uma história manchada pela ignorância.

Porém, tenho experiência suficiente de discernir, causas e consequências, e, sei perfeitamente que, um novo tempo vai chegar trazendo luz em nossos caminhos.

Por Miriam Rey