Nestes últimos dias vimos desfilar acontecimentos que, durante um tempo, marcarão os próximos editoriais.

Em primeiro lugar, a viagem do Papa Francisco a Cuba e aos Estados Unidos inicia uma nova fase pragmática do Vaticano na esfera internacional, com sua presença ativa no cenário mundial. Sua forma inédita de divulgação da doutrina social da Igreja lembra os tempos do Concílio Vaticano II e a Teologia da libertação, cujo ponto fundamental é a “opção pelos pobres” e a crítica incondicional ao neoliberalismo e suas consequências.

Fora os debates internos sobre os dogmas da doutrina, próprios aos católicos praticantes e às instituições eclesiásticas, Francisco construiu uma unanimidade ao redor de sua pessoa e de sua mensagem, que vai além das crenças religiosas ou das diferentes igrejas e confissões. Uma mensagem antiga de dois mil anos – e que depende da forma como é transmitida – marcou certos momentos da História, e este é um deles.

Diante do descalabro e do cinismo do panorama internacional, fruto de uma mentalidade e de uma visão do mundo profundamente irresponsável, egoísta e equivocada que Francisco não cessa de denunciar em cada discurso, suas palavras despertam uma onda de esperança e de união dos povos afligidos e submetidos a ideologias “nefastas”, que negam a prioridade da vida humana e valorizam um hipotético e quimérico crescimento econômico permanente e de lucros infinitos.

Não importa quanto dinheiro eles ganhem. O importante é ganhá-lo a qualquer preço, utilizando qualquer método e sem medir as consequências nem o impacto que os processos neoliberais podem causar à sociedade, tal e qual têm a oportunidade de comprová-lo com o recente escândalo da Volkswagen. Assim podemos ver as multinacionais se comportarem como verdadeiras gangues de criminosos, destruindo o meio ambiente, assassinando sindicalistas e subestimando o impacto social de suas políticas imorais.

Dessa forma, Xstrata, Nestlé, Texaco e tantas outras empresas continuam agredindo a sociedade e destruindo o patrimônio natural da humanidade para seus próprios benefícios e aos de uma minoria irresponsável. Essa minoria pretende monopolizar as riquezas do planeta enquanto os estados das grandes potências fazem todo o possível para protegê-las em nome da liberdade econômica. Um exemplo disso foi os europeus se retirarem da comissão designada pelas Nações Unidas com o objetivo de estabelecer um maior controle sobre as ações das transnacionais e mostrando assim suas verdadeiras caras e suas verdadeiras intenções. (*)

O mesmo ocorreu durante a crise de 2008 em que tudo foi feito para salvar o sistema bancário, sendo este o principal responsável pelo descalabro mundial.

Assim chegamos à situação da Síria, fruto de uma antiga história de convivências dos ocidentais com ditadores sanguinários em nome de investimentos e lucros milionários. Nação artificial criada em 1916, como a maioria dos países do norte da África, é o resultado de um colonialismo selvagem e hoje em dia é também o teatro de uma dança macabra de superpotências que brigam pela primazia. O mundo observa atônito a hipocrisia e o cinismo com que manipulam a situação, se mantendo impermeáveis aos 250 mil mortos e aos milhões de exilados.

O dano causado pelas diferentes guerras no Oriente Médio terá suas consequências na imensidão do tempo futuro, uma vez que são países destruídos em suas infraestruturas, com infâncias massacradas, jovens desesperançosos cuja única opção é a guerra santa para se liberarem da frustração de ter um futuro devastado.

O êxodo, fruto dessa política das grandes potências, está fazendo tremer as bases da União Europeia e a colocando diante de suas contradições. Ele mostra como alguns países como a Hungria, podem sofrer de uma amnésia profunda e ignorar sua própria história ao se posicionar como único defensor da Europa cristã diante de um hipotético êxodo de mulçumanos (cujo objetivo seria destruir os fundamentos da nossa sociedade judaico-cristã). Dessa maneira estão justificadas suas políticas brutais com respeito aos imigrantes, cada vez mais marginalizados.

É de se esperar que a mensagem de Francisco tenha eco nas mentes doentes dos atuais dirigentes, os quais são incapazes de ver o bem comum e criar estruturas ou sistemas que beneficiem a maioria.

Que os povos do mundo se inspirem em suas palavras para desviar as mentiras e as falsas promessas da maioria da classe política – tanto de direita quanto de esquerda – que somente veem seus próprios interesses pessoais e partidários e criam assim o inferno na terra para milhões de almas desesperadas que vivem a cada dia o apocalipse, assassinatos, bombardeios, violações, “estupros”, e destruições.

É cada vez mais urgente reagir diante dos sacrifícios de uma maioria da humanidade em prol de uma ínfima minoria que usurpa os direitos dos cidadãos e protagoniza o maior e mais grave crime contra a humanidade que o mundo jamais conheceu.

Não deixemos somente ao papa Francisco denunciar os efeitos “nefastos” das políticas neoliberais. Temos a obrigação de fazer um esforço de honestidade, de participação e de ação para combater aqueles que destroem as sociedades e o planeta com desprezo total pelas gerações futuras.

Alfonso Vásquez Unternahrer

Tradução : Ana Paula Candelária

(*) https://hebdolatino.ch/es/espanol/12-actualidades/locales/2654-etns-y-derechos-humanos-exito-de-la-primera-reunion-del-grupo-de-trabajo-de-las-naciones-unidas.html