Não é a fraude generalizada o que surpreende, porque enfim já sabemos que a maioria privilegiada da humanidade vive em outra dimensão onde a ética, a moral e as leis são diferentes das do resto dos mortais.

As declarações de surpresa da imprensa e dos dirigentes políticos são um insulto e uma ofensa para os comuns dos mortais, submetidos a todo tipo de regulação e para quem a presunção de inocência inexiste. O mínimo atraso no pagamento de impostos é impiedosamente perseguido, o empobrecimento é criminalizado e a precariedade é considerada como uma doença pessoal.

No circo atual da hipocrisia ao redor do Panamá Papers, as classes dirigentes se ofuscam e se precipitam para explicar que as empresas offshore  são ilegais, que os paraísos fiscais são legítimos, que esconder o dinheiro ou subtraí-los da sociedade é justificado, que os ricos têm o direito, digo, o dever de esconder suas fortunas da cobiça dos pobres e do fisco que perseguem uma classe culpada por enriquecer-se, quando essa é a crença principal do liberalismo capitalista: enriquecer a todo custo sem considerar os meios para se capitalizar. Assim as grandes fortunas não são nem nunca foram limpas, sempre há um lado escuro escondido, um lado Dr. Jekyll e Mr. Hyde que caracteriza nossa sociedade.

Panamá? Se somente…

Quantos outros paraísos fiscais existem no mundo que realizam exatamente as mesmas operações? Não seria surpreendente encontrar os mesmos nomes de pessoas, empresas e dirigentes políticos, em diferentes estruturas divididas no mundo, pois espero que a sociedade civil não seja tão ingênua a ponto de crer que Mossack Fonseca é a única administradora desse tipo de “empresas”.

Quando o cinismo é política de Estado

Países como os Estados Unidos – que pretendem se impor como os guardiães da moral e da democracia no mundo – permitem em seu território os Delawer e os Nevadas ao mesmo tempo que vociferam contra o resto do planeta exigindo transparência, enquanto em New York – a sede da especulação mundial e símbolo da indiferença liberal com a situação do resto da humanidade – se erguem em bastões do cinismo.

Os Estados Unidos são uma nação incapaz de olhar além de seus próprios mitos e quimeras, um país onde os piores criminosos, como Al Capone, são erigidos em  heróis. Tudo é legítimo para ser o número um: mentir, enganar, ocultar…

Foi o que ocorreu com o Vietnã, Iraque e todas as guerras perdidas pelo império, fruto de enganos, mentiras que assassinaram milhares de jovens americanos e enlouqueceram tantos outros, abandonados pelo mesmo governo que lhes mentiu e enganou dizendo que eles eram defensores da democracia, lhes omitindo que também eram defensores de uma pequena minoria que os enviava a morrer para defender seus privilégios.

Ministros declaram que as sociedades offshore não são ilegais e que é preciso deixar para os ricos uma porta de saída para esconder o dinheiro, sob o pretexto de que pagam mais impostos. Esse argumento é de um cinismo abissal, impróprio para um ministro das Finanças, que deveria defender os interesses da população de seu país e não justificar atos criminosos.

Jean-Marie Le Pen, Marc Bonnant, advogado suíço administrador de mais de cem empresas offshore, o presidente da Ucrânia, Petro Poroshenko, o primeiro ministro da Islândia, David Gunnlaugss, que teve que se demitir por causa das denúncias feitas contra ele, o primeiro ministro britânico, David Cameron, o presidente argentino, Mauricio Macri, e muitos outros que devem estar em pânico, desejando que seus nomes nunca apareçam porque isso derstruiria suas ambições políticas.

Tantos e tantos que se ocultam atrás de empresas inexistentes, um mundo mais oculto e opaco que a Deep Net, que esconde dinheiro do tráfico de drogas, do tráfico de influência, do comércio de armas, da corrupção, do roubo massivo das populações africanas, da fraude fiscal generalizada, da espoliação de milhões de indivíduos privados de infra-estrutura, transporte, habitação, educação, saúde – direitos básicos que pertence à sociedade e que esses criminosos a privam para se apropriar dessa riqueza em prol de seus próprios interesses.

Assim, nesses últimos anos temos visto o suicídio público de um sistema baseado no acúmulo, no egoísmo, na cobiça e na estupidez.

O mundo do dinheiro se protege sob o manto do livre comércio, dos tratados internacionais negociados em segredo, da destruição do estado de providência e da privatização generalizada da economia abandonada à voracidade e à ambição de um pequeno grupo que dirige e determina seu rumo em nível internacional.

Tudo isso que constatamos com o comportamento insuportável das instituições financeiras com a Grécia, a negação obstinada das responsabilidades na crise, a chantagem, a insensibilidade que criou a miséria, o desespero e a angústia em toda uma nação.

Vemos também no cinismo e na hipocrisia dos governos com respeito às sucessivas crises do sistema financeiro, bancário e na evasão fiscal organizada com toda a impunidade. Quantos banqueiros, traders, advogados, empresários ou políticos foram para a prisão por suas atividades criminosas?

O 1% da população que acumula a imensa riqueza planetária está provocando uma reação popular que será, sem dúvida, explosiva, e os verdadeiros responsáveis gritarão histéricos à subversão e à perseguição terrorista!. E assim a população perde a confiança em um sistema ilegítimo, em partidos políticos e ideologias que, sem escrúpulos, entregaram a sorte de milhares de indivíduos a uma pequena minoria isenta de ética, de moral, de princípios e que governa para seus próprios benefícios, como se o resto da humanidade não passasse de uma simples decoração.

Panamá Papers é somente uma pequeniníssima gota de água no imenso oceano da evasão fiscal e do acúmulo de riquezas.

O acúmulo e o colapso da economia

Em New York alguns ricos suplicam ao Estado para aumentar os impostos, não por serem nobres de alma, mas porque constataram que o acúmulo das riquezas em poucas mãos está levando o sistema ao colapso. Todos aqueles milhares escondidos que estão imóveis não alimentam a economia, mas fomentam somente a sede de poder e da acumulação de uma minoria doente de cobiça.

O verdadero escândalo “revelado” pelo Panamá Papers não é a evasão fiscal, mas a prova da existência de mundos paralelos onde as pessoas têm direitos e deveres diferentes, em que uma minoria da humanidade se outorgou o direito de expoliar, sem nenhuma decência, o restante do planeta, o qual consideram de seu uso exclusivo. A corrupção galopante cada vez menos discreta e alimentada pela intocabilidade dos gângsteres das finanças, dos bancos, das multinacionais e dos políticos que, com sorriso nos lábios, defendem a imoralidade do sistema justificando que não existe outra alternativa.

Responsáveis de crimes contra a humanidade, as multinacionais do petróleo que destroem o meio ambiente e que, em discursos inflamados, as negam; os especuladores que justificam as consequências de suas ações as legitimando em nome do lucro e de leis que os protegem em nome da economia serão um dia castigados. Assim como não há mal que dure cem anos, não há corrupto ou bandido que seja eternamente impune.

Quando um ministro justifica o crime

Diante dos cidadãos honrados que cumprem seu dever, que lutam no cotidiano para ter uma vida decente, o senhor Ueli Maurer, ministro das Finanças de um dos paíseses mais ricos do mundo, defende um sistema crápula e obsceno afirmando que “tem que deixar uma porta de saída para os ricos”.

Esse senhor deveria renunciar imediatamente e pedir desculpas à população vítima de um sistema criminoso que, mais uma vez, foi exposto às luzes desse grande teatro da desonestidade que a cada dia faz mais vítimas inocentes entre os milhares de mortos por causa de guerras, desastres ambientais, corrupção, injustiças, desigualdades sociais, cobiça, mentiras, hipocrisia e cinismo.

Somente uma reação urgente da sociedade civil pode diminuir os danos desse tsunami de indecência. Somente a democracia direta e a verdadeira participação popular podem remover os políticos inescrupulosos e corruptos que em vez de trabalharem pelo bem-estar geral lutam para impor seus próprios interesses pessoais e setoriais.

O lado positivo em tudo isso é que visto que os crápulas vêm de todos os horizontes políticos, eles mesmos decretaram a morte das ideologias, pois a sociedade civil pecaria por ingenuidade se continuar apoiando os partidos que aplaudiram a construção de tal arquitetura de fraude generalizada e de expoliação, ou de pensar que a solução pudesse vir daqueles mesmos que são responsáveis pelo descalabro que vive atualmente a humanidade.

Agora mais que nunca, a definição de direita e esquerda perdeu todo o seu sentido. Isso dá liberdade para a sociedade civil buscar novos caminhos mais solidários, mais fraternos, mais justos e propor a criação de tribunais para julgar os crimes de corrupção e violações financeiras à mesma altura que o Tribunal de Haia, porque, sem dúvida, se tratam de crimes contra a humanidade e devem ser julgados como tais.

Alfonso Vásquez Unternahrer

Tradução do espanhol : Ana Paula Candelária