Viver isolado é uma escolha de algumas comunidades e deve ser respeitada. Não ter contato algum com a civilização deste planeta é o livre arbítrio atuando na maneira de ser e existir. Os governos devem proteger esses povos e deixarem eles viverem as suas culturas em suas terras ancentrais.

A Amazônia brasileira é a área com maior quantidade de comunidades indígenas isoladas do mundo segundo a ONG Survival International. A Fundação Nacional do Índio (FUNAI), órgão do Governo brasileiro encarregado de proteger os mais de 800.000 indígenas que vivem no país, garante que há pelo menos 107 registros da presença desses grupos, e perto de 30 deles são monitorados —à distância.

O Peru está em segundo lugar, com cerca de 15 a 20 povos isolados. No Paraguai, parte do povo ayoreo e outros clãs vivem fora da mata tropical da Amazônia, na região do Chaco. Na Bolívia, Equador e Colômbia existem grupos menores, e na parte oeste de Papua Nova Guiné (Oceania) se sabe da existência de vários povos, mesmo não se conseguindo estabelecer o número nem os locais exatos em que habitam.

O terceiro grupo de população localizada no mundo é a etnia sentinelesa, da Índia. Este é o povo mais isolado, porque vivem em uma ilha e ninguém consegue entrar ali. Eles protegem muito sua independência e são autosuficientes. O Governo da Índia fez uma aproximação há alguns anos e foi rechaçado, então decidiu não forçar o contato. São felizes e em algumas fotos se nota que estão fortes e sadios. Demonstram que tomaram a decisão correta de permanecer isolados porque não necessitam nada da sociedade de fora, têm tudo em sua ilha.

Os indígenas isolados são definidos como «grupos indígenas com ausência de relações permanentes com as sociedades nacionais ou com pouca frequência de interação, seja com não índios, seja com outros povos indígenas», segundo a FUNAI.

A decisão desses indígenas de não manter contato com outros grupos e com não-índios é possivelmente resultado de violentos encontros anteriores e da contínua invasão e destruição de sua floresta. O grupo de isolados que hoje vivem no estado do Acre são provavelmente os sobreviventes do ciclo da borracha, quando muitos indígenas foram escravizados e mortos.

Alguns povos, como os Awá, são caçadores-coletores e nômades que vivem em constante movimento, sendo capazes de construir uma casa em apenas algumas horas e abandoná-la dias depois.

Outros são mais sedentários, vivendo em casas comunitárias e cultivando plantações de mandioca e outros vegetais em clareiras na floresta. Eles também praticam a caça e a pesca.

No Acre, estima-se que existam cerca de 600 indígenas pertencentes a quatro grupos diferentes. Nessa região, eles vivem em relativa tranqüilidade em vários territórios demarcados praticamente intocados.

É possível que 300 indígenas vivam isolados no território Massaco, em Rondônia.

No entanto, outros povos isolados correm grande risco de desaparecer e são apenas alguns indivíduos.

 

Esses pequenos grupos fragmentados que vivem principalmente em Rondônia, Mato Grosso e Maranhão são os sobreviventes da brutal invasão de terras, que os levou a serem alvejados e mortos por madeireiros, fazendeiros e outros.

O contato com a sociedade dominante tem sido desastroso para os povos isolados no Brasil. Esses povos não possuem imunidade contra doenças comuns em outras regiões, e por essa razão são tão vulneráveis.

É comum que metade de um grupo seja dizimada no período de um ano após o primeiro contato, em decorrência de doenças como o sarampo e a gripe.

Os Matis foram reduzidos pela metade após contato quando ambos jovens e idosos, incluindo a maioria dos xamãs, morreram de doenças introduzidas pelos não-índios.

Confrontos violentos são um dos resultados mais comuns das atividades econômicas em áreas onde esses povos vivem.

Esses conflitos já resultaram na morte de alguns invasores e de muitos índios. Os últimos quatro sobreviventes do povo Akuntsu testemunharam o massacre de seus companheiros, viram as suas casas demolidas por fazendeiros e quase foram mortos após sofrerem ataques brutais.

Os povos isolados devem ter o direito de decidir se preferem viver em isolamento ou não. Mas, a fim de exercer esse direito, eles precisam de tempo e espaço para decidir.

Eles só sobreviverão se suas terras, às quais têm direito perante leis internacionais e nacionais, sejam protegidas. Devemos deixá-los viver em paz, sem medo de ataques violentos ou de serem mortos.

Infelizmente, Os territórios indígenas estão cada vez mais ameaçados por madeireiros e fazendeiros, uma situação que pode se complicar com o governo do presidente Jair Bolsonaro, que tem forte apoio do agronegócio.

O presidente voltou a acusar durante uma coletiva de imprensa com correspondentes estrangeiros que «vocês (estrangeiros) querem que o índio continue como o homem pré-histórico, que não tem acesso à tecnologia, à ciência, às mil maravilhas da modernidade. A maior parte da comunidade estrangeira não está preocupada com os direitos humanos dos índios».

Vamos refletir sobre as escolhas de cada um e de cada grupo neste espaço e tempo, proteger as decisões de formas de vidas que vivem nas florestas e que, decidiram ficar em seu habitat secular, é aplicar o direito universal de convivência pacífica, sem contatos e sem exploração.

« Quando o português chegou

Debaixo duma bruta chuva

Vestiu o índio

Que pena!

Fosse uma manhã de sol

O índio tinha despido

O português »

Oswald de Andrade

Por Miriam Rey