Publicação britânica relembra posturas anticientíficas da gestão Bolsonaro e expõe o desamparo de pesquisadores do país

“Bolsonaro contradiz a opinião científica desde o início da pandemia”. A frase, retirada de uma matéria publicada esta semana pela revista britânica Nature, reflete uma indignação que há muito ultrapassou as fronteiras do Brasil.

O país deve superar nesta quinta-feira (29) a marca de 400 mil mortos por covid-19, e a comunidade científica internacional mantém sua incredulidade diante da omissão do presidente da República.

A reportagem da Nature ouviu os desabafos de Natália Pasternak, doutora em microbiologia e presidenta do Instituto Questão da Ciência, do epidemiologista Jesem Orellana, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), e de Mauricio Nogueira, virologista da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (FAMERP).

Jair Bolsonaro (sem partido) foi chamado a comentar as acusações, mas recusou o convite da revista.

Nature ressalta que o Brasil vive a pior fase da pandemia. “Metade de nossas mortes eram evitáveis. É um desastre total”, disse Orellana.

Governo como fonte de desinformação

O texto da revista britânica faz paralelos entre Bolsonaro e o ex-presidente dos EUA, Donald Trump, e relembra declarações negacionistas do capitão reformado. Por exemplo, quando comparou a covid-19 a uma “gripezinha” e quando alertou para o suposto risco de “virar jacaré” ao se vacinar contra o coronavírus.

Também foram listados momentos em que Bolsonaro descumpriu a determinação do uso de máscaras e criticou medidas de isolamento social para contenção do vírus.

A postura anticientífica do presidente brasileiro, segundo a Nature, se expressa mesmo em temas não ligados diretamente à pandemia.

A publicação lembra que Bolsonaro cortou recursos das universidades públicas e interferiu no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) quando este divulgou um novo recorde de queimadas na Amazônia.

Os relatos dos cientistas deixam claro que, mesmo que estados e municípios tomem medidas restritivas, as declarações do Executivo federal desestimulam a população a cumprir as normas, elevando os níveis de contaminação.

“É muito difícil implementar medidas preventivas quando a desinformação vem diretamente do governo federal”, afirmou Pasternak.

A política brasileira deixou os cientistas desamparados, segundo Nogueira. “Temos as ferramentas ou pelo menos a capacidade de ajudar o país, mas estamos sendo ignorados e não apoiados pelos líderes do país”, denunciou.

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