O dia começou com o céu quase meu.

Vejo um avião no horizonte, estranha imagem, me parece uma lembrança do passado.

O Covid afastou todas as rotas de aviões do meu apartamento.

Lembro de cenas do antes, onde eu era livre e viajava pelos quatro cantos do mundão, sem limites e nem fronteiras contaminadas.

Na viagem sem sair do lugar admiro aquilo que me restou: eu mesma, a minha esperança e o meu agradecimento por estar aqui e agora com saúde e vontade de sonhar mais e mais, de ver as realizações vestidas de futuro.

Tudo isso me enche do espírito da plenitude.

Entre uma coisa e outra, as coisas acontecem, uma voz no rádio me informa as novas estatísticas de mortos e contaminados.

As vacinas rolam no mundo como se fossem bênçãos prioritárias ou maldições mal informadas.

Tipo o remédio salvador.

E eu?

Penso no tempo, repenso, vivo a ilusória cena de uma ilha distante, ensolarada cheia de Mata Atlântica.

Ah se eu podesse, ah seu tivesse condições, ah se eu fosse transportada no milagre da volta do tempo, estaria lá sentada na areia branca.

A interagir com as ondas, sentido o sal impregnando meu corpo, contando estrelas, enchendo o meu pulmão da maresia.

Enquanto as horas passam, olho a poderosa montanha inatingível do 7º andar do meu apartamento em Genebra.

Se sou feliz?

 Claro que sou…

Busco dentro das 24 horas no meu dia, emoções, estudos, crio frases, parágrafos e realizo poemas.

Completo o ciclo do dia e nele me entrego.

Sou mais uma aqui, vivendo a sombra e a luz do que podemos chamar de vida intensa.

Uma nuvem racional cai em frente da minha cara, ok!

Bora realidade viver mais um ato no fato, buscando o combustível do corpo e da alma.

A porta se fecha e a mente se abre.

Pronta pra viver mais uma aventura programada nas ruas da cidade, nas falas já conhecidas.

Visualizo uma surpresa que o meu cérebro ainda não viu, nem ouviu…

Será?

Por Miriam Rey