O ano de 2018 começa com os mesmos: Putin, Trump, Erdogan, Xi Jinping, Bachar …. Com a diferença de que Daech (O Estado Islâmico) não existe mais dentro dos limites territoriais. Nós já não os vemos como antes na internet e agora estão ocupados assassinando muçulmanos no Afeganistão e no Paquistão, onde eles sobrevivem competindo com os talibãs, já que seus soldados em território europeu foram mais ou menos neutralizados.

O califado teve  uma existência curta e dolorosa. O sofrimento e o horror infligidos por essa gangue de criminosos não desaparecerão tão rapidamente.

É urgente não ser ingênuo e pensar que o perigo acabou. Perder o território não significa que Daech está aniquilado, a besta é ainda mais perigosa quando ferida. Veremos nos meses vindouros, de que forma o dano ocorrerá para continuar a existir. Por enquanto, os massacres estão concentrados contra os xiitas, os sufis e os cristãos orientais.

O Alcorão diz que se você mata um homem, você mata a humanidade toda.Triste humanidade que deve continuar a viver entre massacres e genocídios em nome de divindades, chamadas petrodollar ou Allah.

A selvageria irracional do DAECH mostrou que a sede de poder, de dominação, envolvida em um discurso demagógico religioso pode ter consequências sangrentas.

O triste exemplo do Brasil

Assim, do outro lado do espectro, os grupos evangélicos brasileiros representam o maior atraso que este país experimentou nas últimas décadas. Com um plano declarado de tomada do poder, as igrejas evangélicas estão tentando impor um ritmo ultra-conservador, intolerante e totalitário .

Uma ação política baseada unicamente em discursos demagógicos. O Rio de Janeiro é governado por um político pertencente à Igreja Universal do Reino de Deus, Marcelo Cribella, incapaz de separar seu papel de pastor do seu cargo de prefeito. A cidade vive um dos piores períodos de sua história: violência extrema, guerra entre narcotraficantes, crianças que morrem de balas perdidas nos jardins de suas casas, infra-estrutura abandonada, cultura ameaçada pelo fanatismo religioso que ataca o carnaval, o samba e as religiões afro-brasileira como a Umbanda e o Candomblé.

Os fiéis dessas «igrejas» são aqueles que têm menos educação dentro da sociedade. São os
mais pobres e marginalizados pelo sistema, terreno fértil para todas as manipulações, para um discurso demagógico vazio e desenfreado, onde a famosa «verdade divina» é gritada em microfones que constantemente alertam para o apocalipse e o fim do mundo. Na realidade, seus representantes só estão interessados no dízimo, na contribuição dos fiéis, que fizeram a fortuna dos pastores, que não têm preparação nenhuma e que são profundamente ignorantes da própria religião que eles afirmam ensinar.

Bandidos disfarçados de evangelistas, traidores da mensagem cristã, levaram a sociedade brasileira a um beco sem saída, tendo os partidos evangélicos feito um pacto com o diabo, juntando-se a um governo criminoso que luta incansavelmente para aferrar-se ao poder et escapar da Justiça (o presidente Temer já foi denunciado duas vezes no Congresso pelo Ministério Público como líder de gangue criminosa, corrupção ativa e lavagem de dinheiro) e continua a impor um plano ultra-liberal que está destruindo o país e entregando toda a sua riqueza à voracidade do capital estrangeiro.

O que está acontecendo no Brasil é um exemplo até onde o sistema democrático representativo pode chegar em um país que não possui condições para impor uma verdadeira democracia, num continente dominado pelas elites econômicas, totalmente corrompido que utilizam as nações como propriedade privada em detrimento de seus povos.

Este exemplo extremo nos obriga a refletir sobre o fato democrático, em busca de representações populares mais adaptadas às necessidades reais das pessoas e não às das elites que não têm escrúpulos em fazer leis para seus próprios interesses, abandonando a população as desastrosas conseqüências sociais das políticas liberais impostas, neste momento, na maioria dos países da América Latina.

É fundamental compreender o fato religioso e seu impacto na sociedade, principalmente agora, período em que a separação entre a igreja e o estado está perdida em definições obscuras.

Devemos proteger nossas sociedades do fundamentalismo religioso que põe em perigo liberdades fundamentais em nome das ideologias reacionárias e ultraconservadoras que querem impor a sociedade seus pontos de vista, recusando a existência dos direitos dos outros, da diversidade e do pluralismo político e religioso.

Os fanáticos fundamentalistas, seja do islamismo ou do cristianismo, devem ser combatidos como uma doença que gangrena as sociedades no seu interior, que tentam impor teocracias totalitárias em nome de deus, personagem que até agora, ninguém conseguiu verificar a existência.

Devemos lutar contra tudo o que impede as sociedades humanas de progredir e se desenvolverem em liberdade, num espaço verdadeiramente democrático e isso só será possível quando entendermos o verdadeiro significado do conceito de «autonomia popular».

Durante este ano de 2018, tentaremos desenvolver este conceito tanto quanto possível, procurando suas origens e contando a história do movimento de autonomia popular no mundo, que foi a base do sindicalismo, do nascimento da democracia popular e democracia direta na Suíça, o melhor exemplo até hoje da soberania popular.

Serão bem-vindas todas as colaborações que poderem alimentar o debate para a pesquisa de novas perspectivas políticas e de pensamentos que possam nos permitir de refletir sobre essa dicotomia esquerda-direita que não tem mais sentido em uma economia globalizada controlada pelas grandes empresas multinacionais e os interesses do setor financeiro.

É hora de pensar em uma alternativa que nos permita salvar o planeta, construir uma sociedade harmoniosa onde o centro será o ser humano e seu desenvolvimento integral, bem ao contrário da sociedade onde atualmente estamos vivendo, construída para os obcecados pelo dinheiro e pelo  «ter», eliminando o ser, por não ser suficientemente produtivo.

 Alfonso Vásquez Unternahrer

Tradução do francês para o português: Miriam Rey

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