Entre ficção e documentário !
                                    Vida-morte ; Vento-mar… e uma fotografia excepcional.

Festival de Locarno Gabriel Mascaro foto  Sergio FerrariEntre ficção e documentário, aproximação antropológica e pura arte, o primeiro longa metragem do jovem realizador brasileiro Gabriel Mascaro foi apresentado nesta sexta em Locarno, único filme sul americano que entrou na Competição Internacional da 67° edição ; « Ventos de Agosto » mostra o potencial, as ambivalências e os desafios do novo cinema latino-americano emergente. Realizado, geralmente, por profissionais jovens e com poucos recursos financeiros.

« Para mim não existe contradições entre a ficção e a realidade, tampouco entre a vida e a morte, são componentes de um único todo » enfatiza Mascaro em entrevista exclusiva para este correspondente. « Minha intenção, em todo caso, foi de aproximar com um olhar de convergência a vida e a morte, convencido que fazem parte da mesma experiência »

Para provar estas hipóteses, o realizador e a pequena equipe de cinco pessoas, intalaram-se por algumas semanas, em meados de 2012, em uma pequena cidade costeira de Patacho, no estado de Alagoas. Periodo de fortes ventos marcou a ação principal do filme que teve a sua estréia mundial em Locarno.

Quando o cotidiano domina

Shirley, na atuação da atriz Dandara Morais, abandona a vida urbana para chegar nesta vila costeira e ocupar-se de sua Festival de Locarno Dandara De Morais Foto Sergio Ferrarivelha avó que vive sozinha. Condutora de trator em uma plantação de cocos, encontra Jeison Geová Manoel dos Santos que trabalha na mesma plantação e que nas horas vagas, pratica pesca submarina, apnéia.

As tormentas tropicais de agosto golpeiam regularmente a costa, em um dado momento, o especialista de ventos, interpretado pelo próprio realizador Mascaro, chega ao pequeno vilarejo atlântico para localizar a zona de convergência intertropical e escutar o som do vento, ele descobre um esqueleto antigo no fundo do mar, a morte acidental do recém chegado, leva aos jovens Shirley e Jeison ao confronto da dualidade entre a vida e a morte, duelos e recordações, vento e mar.

Uma ficção com base antropológica

Com a excepção de Dandara de Morais, a atriz principal, todos os protagonistas foram selecionados entre a população local, o que implicou em um encontro intercultural forte entre a equipe cinematográfica e os nativos do local.

« Apesar de ser um encontro entre dois mundos, não poderia afirmar que seja um filme antropológico » explica Mascaro, « No momento que existem personagens externos que dão força e ficção, se trata essencialmetnte de cinematografia e não de etnografia, mesmo que possam haver referências antropológicas na idéia de base »

« Foi uma experiência muito desafiante. Eu fui morar com Maria, que no filme faz o papel de minha avó, na sua casa humilde, sem água corrente e sem banheiro, apenas uma cama e um colchão » explica Dandara de Morais.

Passamos três semanas juntos com os atores locais, recorda a protagonista, e deste intercambio ativo foi nascendo a versão final do filme. « Eu tive muita liberdade de ação, pude improvisar constantemente, porém os outros atores, que não são profissionais, tiveram que aprender quase de memória seus papéis para não perderem o fio da meada e dar coerência a ação ».

O encontro e a convivência com Maria, construiram elos fortes. « Criaram-se em pouco tempo, laços afetivos profundos » Dandara incorporou a verdadeira neta, onde escutava histórias de vida, penteava e mimava, o que permitiu estabelecer uma grande confiança que se expressou nos diálogos do filme.

Locarno: “algo incrível”

A apresentação do filme na Competição Internacional, aparece hoje para Dandara Morais como « um sonho feito realidade, algo realmente incrível que marca o início de um caminho promissor ».

Com a expectativa crescente da distribuição assegurada no Brasil e em busca de compradores em outros paises. Selecionado para o próximo Festival de Brasília.

Um progresso que causa surpresa no diretor e na equipe. Dandara afirma : «Sempre quis ser atriz mas nunca imaginei que em somente dois anos, ia passar de bailarina à protagonista de um filme e estar presente em uma tela tão prestigiosa como a que oferece este festival ».

Sergio Ferrari, de Locarno Suíça
Tradução de Miriam Rey